A casa de análise Baird resolveu, nesta semana, rebaixar a recomendação das ações da Truist Financial por considerar o preço esticado em relação aos fundamentos. Quer dizer, depois que o papel subiu, depois que os grandes clientes institucionais já se posicionaram, depois que o varejo entrou no topo achando que ia surfar a alta, o analista finalmente percebe que a coisa estava cara. É o roteiro de sempre, e quem foi mordido outras vezes já reconhece o cheiro.
Existe uma indústria inteira que vive de fingir que descobre o óbvio quando o óbvio já não rende mais. Rebaixar Truist hoje é dizer ao paciente que ele tem febre depois de três dias de delírio. O preço subiu porque o setor bancário americano vive há mais de uma década num ambiente de juros artificialmente manipulados, balanços do banco central inchados, e injeção de liquidez que transforma qualquer ativo financeiro num balão de festa. Quando o balão começa a desinflar, aparece o relatório técnico explicando que, olha, talvez tenha enchido demais. Não diga.
O ponto que ninguém da imprensa econômica brasileira menciona é simples. Bancos não ficam caros sozinhos. Ficam caros porque o sistema monetário inteiro é uma fábrica de distorções de preços relativos, e o setor financeiro é o primeiro a receber o dinheiro novo, antes de qualquer outro pedaço da economia. Os economistas chamam isso de efeito de cantillon há trezentos anos, mas no Brasil de hoje preferem chamar de "ciclo de mercado", como se fosse fenômeno natural igual à chuva. Não é. Tem dono, tem endereço, tem assinatura na ata do comitê de política monetária.
Siga o dinheiro e você descobre o seguinte. Quando o juro sobe, o banco ganha no spread. Quando o juro cai, o banco ganha na valorização dos ativos. Quando há crise, o banco ganha no socorro. Quando há boom, o banco ganha na euforia. O único momento em que o banco perde de verdade é quando o sistema inteiro implode, e mesmo aí o contribuinte aparece com cheque em branco para salvar a instituição "sistemicamente importante". Heads I win, tails you lose, jogado com a moeda do outro.
O rebaixamento da Truist, portanto, não é informação. É confirmação atrasada de algo que qualquer leitor atento dos balanços já tinha digerido. Serve para que o analista preserve a reputação ao mudar de lado depois que a maré virou, e para que o investidor de varejo tenha alguém para culpar quando perceber que comprou caro. A função social do relatório é essa, fornecer álibi para perdas previsíveis. O resto é teatro de Wall Street com tradução simultânea para o português.
O leitor que quer proteger seu patrimônio precisa entender que recomendação de banco sobre ação de banco é o equivalente a peixaria avaliando a frescura do próprio peixe. O incentivo está desalinhado desde a origem, e nenhuma quantidade de regulação muda a natureza do arranjo. Quem entendeu isso há vinte anos já não pergunta o que o analista achou. Pergunta quem está comprando o que ele está vendendo, e por quê. A resposta, quase sempre, dói.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.