Chega mais um balanço da QuantumScape e, com ele, a encenação já conhecida: investidores de olhos marejados acompanhando slides sobre a tal Eagle Line, a linha de produção que promete finalmente tirar a bateria de estado sólido do laboratório e colocá-la num carro de verdade. O problema é que essa peça está em cartaz há anos, o elenco muda, o cenário ganha retoques, e o terceiro ato nunca chega. Enquanto isso, o caixa da empresa derrete numa velocidade que faria corar qualquer ministro da Fazenda brasileiro, e a capitalização de mercado segue oscilando ao sabor de um PowerPoint.
O ponto que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta é simples: a QuantumScape nunca vendeu nada em escala comercial. Ela vende expectativa, vende futuro, vende a ideia de que um dia, quem sabe, vai entregar. E o mercado, dopado por uma década de juros artificialmente baixos e capital jorrando para qualquer coisa que tivesse a palavra verde no prospecto, fingiu que isso era um negócio. Não é. É uma aposta de capital de risco travestida de ação listada em bolsa, com o detalhe agravante de que o risco, aqui, foi socializado entre pequenos investidores que acharam estar comprando a Tesla das baterias.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais pitoresca. Boa parte do funding inicial veio de parcerias com grandes montadoras, Volkswagen à frente, que por sua vez receberam bilhões em subsídios europeus e americanos para a chamada transição energética. Ou seja, o contribuinte alemão, o contribuinte americano e, por tabela, o contribuinte brasileiro que compra carro importado, estão todos financiando a torcida organizada da Eagle Line sem saber. Quando o Estado decide qual tecnologia vai vencer o futuro, o resultado nunca é o melhor produto, é o produto mais bem conectado politicamente. E bateria de estado sólido, hoje, é a queridinha dos gabinetes.
Há uma beleza cruel no contraste entre o discurso oficial e a planilha. No palco, executivos falam em revolucionar a mobilidade, em descarbonizar o planeta, em reinventar a química do lítio. Na planilha, prejuízo operacional recorrente, diluição sistemática do acionista via emissão de novas ações, e uma receita que, ao lado dos gastos em pesquisa, parece piada de mau gosto. Se isto fosse uma padaria no interior de São Paulo, o banco já teria tomado o imóvel. Como é startup de tecnologia com selo ESG, vira capa de revista e recebe mais uma rodada.
O que não se vê nesse teatro é o custo de oportunidade do capital aprisionado. Cada bilhão que foi para a QuantumScape é um bilhão que não foi para uma indústria que efetivamente entregava produto, gerava empregos reais, pagava dividendos. Cada engenheiro contratado ali é um engenheiro que poderia estar resolvendo problema concreto em outro lugar. A mão invisível do mercado, quando livre, realoca esses recursos rapidamente. A mão pesadíssima do subsídio verde, dos incentivos regulatórios e dos mandatos governamentais de eletrificação, essa mantém o zumbi caminhando anos além do que a realidade econômica permitiria.
A verdade inconveniente é que a Eagle Line pode até, num futuro incerto, entregar alguma escala. Talvez em 2027, talvez em 2030, talvez nunca. O que já entregou, e com folga, é um retrato preciso de como funciona o capitalismo de compadrio no século XXI: governos apostam, bancos centrais imprimem, gestoras de fundos compram, a mídia especializada aplaude, e o investidor de varejo fica com o mico quando a música para. Quem não aprendeu isto em 2000 com as pontocom, em 2008 com os subprime, e em 2022 com as SPACs, vai aprender agora, com juro de verdade batendo à porta e a impressora do Fed fechada para balanço. A escala que a Eagle Line precisa entregar primeiro é a escala da honestidade com o próprio acionista.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.