A Travelers Companies divulga hoje seu balanço do primeiro trimestre de 2026, e Wall Street espera um lucro por ação de US$ 6,84, um salto de 258% em relação ao mesmo período do ano passado. Antes que alguém comemore, convém lembrar por que a base de comparação é tão generosa: o primeiro trimestre de 2025 foi devastado por sinistros catastróficos que engoliram qualquer margem de lucro decente. Comemorar crescimento sobre um trimestre de desastre é como se gabar de correr mais rápido que um homem de muletas.
O quadro real do setor de seguros americano é bastante menos festivo do que as manchetes sugerem. O ano de 2025 fechou com US$ 145 bilhões em perdas seguradas, sendo US$ 40 bilhões só dos incêndios na Califórnia e outros US$ 50 bilhões em tempestades. O combined ratio projetado para 2026 já ronda os 99%, o que em linguagem de seguradora significa operar no fio da navalha entre o lucro microscópico e o prejuízo. Os prêmios crescem a 3-4%, uma desaceleração considerável frente aos 5,5% de 2025, enquanto nas regiões de maior risco, Califórnia e Flórida, as seguradoras simplesmente param de renovar apólices. Quer dizer, o negócio de segurar imóveis contra catástrofes está se tornando tão atraente quanto vender guarda-chuva dentro d'água.
Mas a história que realmente importa aqui não é a do setor de seguros, é a do mercado imobiliário que sustenta boa parte da sua receita. As vendas de imóveis existentes caíram 3,6% em março, atingindo 3,98 milhões de unidades anualizadas, a mínima em nove meses. A valorização nacional encolheu para míseros 1,1% em doze meses, o menor patamar desde 2012. Em 28 das 53 maiores regiões metropolitanas, os preços já estão em queda. Cape Coral, na Flórida, aquela mesma Flórida que há três anos era a terra prometida do boom imobiliário, viu seus preços despencarem 9,6%. A Associação Nacional de Corretores, que no início do ano prometia um crescimento de 14% nas vendas, agora fala em 4%, com aquele sorriso amarelo de quem errou feio e sabe que todos estão olhando.
Olha, o que está acontecendo não é mistério nenhum para quem entende o mecanismo mais básico da economia. Durante anos, o Federal Reserve manteve os juros artificialmente baixos, inundando o mercado com crédito fácil. Os preços dos imóveis inflaram além de qualquer relação razoável com a renda das famílias. Construtoras construíram, especuladores especularam, bancos emprestaram, e todo mundo fingiu que a festa não teria fim. Agora, com os juros hipotecários ainda elevados e o emprego dando sinais de fraqueza, a realidade bate na porta. A desaceleração do imobiliário não é um acidente, não é culpa do clima, não é culpa da China. É a consequência matemática de uma década de dinheiro fácil. Cada dólar de crédito artificial criou uma promessa que a economia real não consegue honrar.
E é aqui que a coisa fica interessante para o contribuinte e o segurado comum. Quando o mercado imobiliário desacelera, as seguradoras perdem receita de prêmios porque há menos transações e menos construções novas. Ao mesmo tempo, os sinistros catastróficos não diminuem, pelo contrário, aumentam. O resultado é previsível: prêmios mais caros para quem fica, cobertura recusada para quem mora em área de risco, e uma pressão crescente para que o governo entre como "segurador de última instância". Me diz uma coisa, quando foi que um governo entrou para "ajudar temporariamente" um mercado e saiu depois? A resposta é nunca. O seguro estatal vira subsídio permanente, o subsídio vira incentivo para construir em áreas que nenhuma seguradora privada sensata cobriria, e o ciclo recomeça, desta vez com o dinheiro do pagador de impostos financiando a imprudência alheia.
O balanço da Travelers, qualquer que seja o número final, é apenas a fotografia de um instante dentro de um filme que já sabemos como termina. O mercado imobiliário americano não está "desacelerando", está devolvendo a realidade que lhe foi negada por anos de política monetária irresponsável. As seguradoras, presas entre catástrofes naturais crescentes e uma base de clientes que encolhe, serão as primeiras a sentir o aperto. Mas não se engane: a conta não para nelas. A conta, como sempre, desce para o cidadão que paga impostos, paga prêmios cada vez mais caros e assiste ao governo prometer soluções que são, na verdade, a semente do próximo problema. Não existe proteção contra a realidade. Existe apenas o momento em que você para de fugir dela.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.