Saiu o resultado do segundo semestre de 2025 do Banco Agrícola da China e a manchete é exatamente aquela que o Partido Comunista queria que fosse: lucros robustos, carteira saudável, expansão sólida. Quer dizer, num país onde o regulador, o auditor, o controlador, o cliente preferencial e o acionista majoritário são literalmente a mesma entidade política, a palavra "resultado" precisa ser lida com pinça. O que se vê é um relatório bonito. O que não se vê é a montanha de empréstimos podres concedidos a estatais zumbis, a governos provinciais falidos e ao setor imobiliário que detonou em câmera lenta desde o estouro da Evergrande. Tudo isso continua lá, escondido na contabilidade criativa de um sistema que confunde livro-caixa com folheto de propaganda.
Olha, é preciso entender a natureza da besta. O Banco Agrícola não é banco no sentido em que um cidadão ocidental entende a palavra. É braço operacional do Estado chinês, uma alavanca de política industrial vestida de instituição financeira. Ele empresta porque mandam emprestar, refinancia porque mandam refinanciar, e contabiliza como ativo aquilo que em qualquer balanço auditado por gente independente seria classificado como prejuízo a caminho. Quando o presidente determina que o crédito tem que crescer para sustentar a meta de PIB, o banco cresce o crédito. Quando determina que os juros têm que cair para socorrer construtoras quebradas, os juros caem. Isso não é mercado, é coreografia.
Me diz uma coisa, qual é o mecanismo que distingue um empréstimo bom de um empréstimo ruim numa economia onde o preço do dinheiro é fixado por um comitê político e o destino do crédito é decidido por burocrata em Pequim? Não há. Sem preço livre, sem cálculo possível. O banco "ganha" porque o governo decide que ele ganha, capitaliza ele quando precisa, esconde a inadimplência via prorrogações infinitas e empacota o lixo em veículos opacos que ninguém nunca vai abrir. É a velha história do plano que produz números magníficos no papel enquanto a realidade material vai apodrecendo por baixo. O lucro reportado é o equivalente financeiro daquelas fotos de tratores em fila durante o Grande Salto Adiante.
E há ainda o detalhe geopolítico que os analistas de banco em Faria Lima fingem não enxergar. Esse balanço fofo serve para sustentar a narrativa de que o sistema financeiro chinês está sólido justamente no momento em que capital estrangeiro foge, exportações cambaleiam diante das tarifas americanas e o consumidor interno se recusa a gastar porque sabe, no osso, que o emprego pode evaporar amanhã. O número bonito é munição para a guerra de percepção. Não é contabilidade, é propaganda traduzida para a língua do mercado financeiro, e o mercado, dócil como sempre que tem comissão a embolsar, repete a manchete sem perguntar de onde veio o lucro.
Siga o dinheiro e você encontra sempre o mesmo arranjo. O banco empresta para a estatal, a estatal contrata a empreiteira, a empreiteira constrói a ponte que ninguém atravessa, o governo provincial paga via dívida nova garantida pelo banco, e o ciclo recomeça mais alavancado que antes. Cada rodada gera uma linha de receita no balanço do Banco Agrícola e uma camada adicional de podridão no sistema. É o tipo de engenharia que funciona enquanto ninguém pede para sacar. No dia em que pedirem, descobrirão que o cofre está cheio de promessas escritas com a tinta do próprio devedor.
O resultado robusto, portanto, é exatamente o que parece ser quando se conhece o jogo: um press release com pretensão de demonstração financeira. Quem ainda acha que estatal gigante em regime de partido único produz números confiáveis está pedindo para ser surpreendido pela próxima crise, e dessa vez sem o consolo de poder dizer que ninguém avisou. A história já mostrou cem vezes o que acontece quando se confunde decreto com produtividade, e mesmo assim sempre aparece um terno engomado para jurar que desta vez é diferente. Não é, nunca foi, nunca será.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.