Olha que beleza de manchete saiu de Pequim nesta semana: o banco central promete combater a "competição involutiva" no setor financeiro. Traduzindo do mandarim burocrático para o português dos mortais, isso significa que bancos e instituições financeiras estão competindo demais entre si, oferecendo juros melhores, margens menores, produtos mais agressivos, e o Partido Comunista decidiu que isso, veja você, é um problema. A solução? Conter. Frear. Disciplinar. Uma palavra simpática para cartelizar com chancela estatal.
O termo "involução" virou febre no léxico chinês para descrever qualquer competição que o regime considera excessiva, desgastante ou improdutiva. Quer dizer, alguém em algum gabinete de Pequim chegou à conclusão iluminada de que a concorrência, esse mecanismo que há quatro séculos vem tirando bilhões da miséria, agora é um vício a ser corrigido. E corrigido por quem? Pelos mesmos planejadores que produziram a maior bolha imobiliária da história moderna, que estouraram o Evergrande, que afundaram o Country Garden, que enterraram a poupança de uma classe média inteira em concreto fantasma.
Me diz uma coisa: quem ganha quando o regulador "contém a competição"? Não é o consumidor chinês, que vai pagar mais caro pelo crédito. Não é o pequeno empresário, que perde acesso a financiamento melhor. Quem ganha são os bancos estatais gigantes, os campeões nacionais protegidos pelo Partido, as instituições politicamente conectadas que não aguentam mais ter de competir de igual para igual com bancos menores e mais ágeis. Siga o dinheiro e você encontrará, como sempre, o casamento incestuoso entre o poder político e o capital amigo do poder. Capitalismo de compadrio em mandarim ainda é capitalismo de compadrio.
O detalhe filosófico delicioso é que o conceito de "competição involutiva" parte de uma premissa autoritária travestida de preocupação técnica: a de que existe um nível ótimo de concorrência que pode ser determinado por um comitê. Como se o burocrata, sentado na sua cadeira em Pequim, soubesse melhor que milhões de agentes econômicos atuando simultaneamente qual o ponto exato em que a competição deixa de ser saudável. Essa pretensão de onisciência já foi tentada ao longo do século vinte em escala industrial, e o resultado foi sempre o mesmo: filas, escassez, corrupção e empobrecimento. A diferença é que agora vem com aplicativo de pagamento e reconhecimento facial.
O que se vê é o anúncio bem embalado, com vocabulário técnico, discursando sobre "estabilidade financeira" e "desenvolvimento sustentável". O que não se vê é o pequeno banco regional que será sufocado, o produto financeiro inovador que nunca chegará ao consumidor, a startup fintech que será absorvida ou eliminada, o aposentado que receberá rendimento menor porque a competição pelo seu dinheiro foi declarada nociva. Toda intervenção fabrica vencedores invisíveis e perdedores silenciosos, e os perdedores são quase sempre os mesmos: o consumidor, o poupador, o cidadão comum que não tem lobista em Pequim.
Existe ainda a questão da espiral. Toda intervenção gera distorções, toda distorção gera demanda por nova intervenção, e em pouco tempo o que era um mercado vira uma caricatura administrada. A China levou três décadas construindo um simulacro de capitalismo que enriqueceu o regime e parte da população, e agora descobre, surpresa, que controle econômico exige controle cada vez maior, até não restar economia, só controle. O ocidente que olha para isso com inveja deveria olhar com terror, porque o vocabulário da "competição involutiva" já está sendo importado por reguladores europeus e brasileiros sob outros nomes igualmente perfumados. Quando o Estado decide que a concorrência é um vício, prepare-se: a próxima coisa a ser declarada vício será a sua liberdade de escolher.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.