Praga acordou esta semana com o anúncio solene de seu banco central: caso o conflito no Oriente Médio empurre o petróleo para cima e contamine os preços, a autoridade monetária está pronta para elevar juros. Repare na coreografia. O incêndio está em Teerã, em Tel Aviv, em alguma refinaria do Golfo, e a culpa cai sobre o consumidor tcheco que vai pagar mais caro pelo financiamento da casa própria. Quer dizer, alguém lá longe atira um míssil, e o sujeito que trabalha em Brno descobre que a prestação subiu. Esta é a versão moderna da pilhagem legalizada: o cidadão paga por uma decisão que não tomou, contra um inimigo que não escolheu, para corrigir um sintoma de uma doença que o próprio remédio fabricou.

Porque a pergunta que nenhum jornal econômico faz é esta: por que o preço do petróleo, que sobe e desce há cento e cinquenta anos por mil razões geopolíticas, agora supostamente exige que se aperte o cinto monetário do continente inteiro? A resposta é constrangedora para quem dirige as engrenagens. A inflação não nasce do barril de Brent, nasce da prensa de impressão. Quando o sistema bancário europeu passou anos inundando o mercado com euros e coroas baratas, criou um colchão de combustível seco esperando uma faísca. A guerra é a faísca, mas o combustível foi empilhado em Praga, em Frankfurt, em Bruxelas, pelos mesmos senhores que agora se apresentam como bombeiros.

Olha, este é o golpe mais antigo do baralho. Primeiro o banco central expande crédito artificialmente, premia governos gastadores com juros baixos, infla o balanço com títulos podres e chama isso de estímulo. Quando a conta chega, sempre chega, a culpa é da pandemia, do Putin, do Hamas, do clima, do que estiver à mão. Nunca, jamais, em nenhum comunicado oficial do mundo, o banco central admite que a doença chamada inflação tem um pai biológico, e que esse pai mora dentro do prédio com colunas neoclássicas e ar-condicionado central.

O detalhe gostoso da história tcheca é que a República Tcheca tem, historicamente, um dos bancos centrais menos lunáticos da Europa. Resistiu ao euro, manteve sua coroa, foi mais ortodoxa que a média. E mesmo assim, está presa na mesma armadilha estrutural: o regime de moeda fiduciária administrada por comitê obriga todo banco central a fingir que controla algo que ninguém pode controlar. Quando se admite que a taxa de juros do país inteiro será definida em função de um conflito a cinco mil quilômetros de distância, o que se está dizendo, na prática, é que a autoridade monetária local não tem mais autoridade nem mais política nem mais monetária. É um termômetro caro vestido de cirurgião.

E note quem ganha e quem perde nesta dança. Quem ganha são os bancos comerciais, que cobram juros mais altos sobre o crédito existente sem que tenha mudado nada na produtividade real da economia. Quem ganha é o governo, que justifica novos pacotes emergenciais para "proteger as famílias" das altas que ele mesmo provocou via impostos sobre energia e regulação ambiental delirante. Quem perde é o aposentado que vê o poder de compra evaporar, o pequeno empresário que não consegue mais rolar capital de giro, o jovem que adia o casamento porque não consegue financiar um apartamento. A inflação não é democrática, ela é regressiva: rouba mais de quem tem menos.

O espetáculo de Praga é o mesmo de Brasília, de Buenos Aires, de Ancara, de Washington. Muda o sotaque, muda a moeda, muda o pretexto, mas o roteiro é idêntico. Burocratas anunciam com semblante grave que tomarão medidas duras contra um problema que eles próprios criaram, e a imprensa especializada aplaude a coragem da decisão. Não é coragem, é encenação. A verdadeira coragem seria admitir que cem anos de bancos centrais produziram cem anos de bolhas, crises e empobrecimento monetário sistemático, e que a única política antiinflacionária honesta é não imprimir o que não existe. Mas isso, claro, ninguém vai dizer no comunicado oficial.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.