O Banco da Amazônia, instituição financeira federal cuja existência poucos brasileiros conseguem justificar sem recorrer ao manual ideológico do desenvolvimentismo dos anos 1950, anunciou queda no lucro líquido do primeiro trimestre para R$47,5 milhões. O número é noticiado com a solenidade técnica de sempre, como se estivéssemos diante de um banco privado prestando contas a acionistas que arriscaram capital próprio. Olha, não estamos. Estamos diante de uma operação custeada pelo contribuinte, que opera com funding subsidiado, garantia implícita do Tesouro e mandato político disfarçado de missão regional. O lucro, quando aparece, é cosmético. O prejuízo, quando vem, é socializado. E o noticiário trata tudo como se fosse engenharia financeira neutra.

Me diz uma coisa: alguém já parou para calcular quanto custa esse banco para quem nunca pisou em Belém? O Fundo Constitucional de Financiamento do Norte despeja bilhões anualmente nas mãos da instituição a juros que nenhum banco privado teria coragem de oferecer, porque nenhum banco privado tem o luxo de emprestar dinheiro que não é seu. Esse é o truque mais antigo do intervencionismo regional. Pega-se o imposto pago pelo trabalhador de São Paulo, pelo industrial de Caxias, pelo comerciante de Goiânia, repassa-se ao banco federal a custo zero, e chama-se a operação de fomento. O que se vê é a usina inaugurada, a cooperativa amparada, o fazendeiro contemplado. O que não se vê é a cadeia infinita de investimentos privados que nunca aconteceram porque o capital foi confiscado para financiar a brincadeira.

O cálculo econômico genuíno exige que alguém arrisque o próprio patrimônio. Quando o gestor de banco estatal libera crédito, ele não está arriscando nada que seja dele. Está distribuindo recurso alheio segundo critérios que, sejamos honestos, raramente passam pelo crivo da viabilidade econômica e quase sempre passam pelo crivo da conveniência política. Por isso o lucro de um banco como esse não significa nada. Lucro de verdade é remuneração por servir o consumidor melhor que a concorrência. Lucro fabricado por monopólio de funding constitucional é apenas a sobra contábil de um esquema de transferência de renda travestido de instituição bancária.

E há a queda em si, esse detalhe que ninguém quer destrinchar. Por que caiu? Inadimplência subindo no agro amazônico? Provisão aumentada para créditos que todo mundo sabia que eram duvidosos quando foram concedidos? Custo de captação reagindo à própria política monetária que o governo federal empurra com a impressora? Cada uma dessas hipóteses revela a mesma verdade desconfortável. O banco que existe para corrigir falhas de mercado opera replicando exatamente as falhas que o mercado livre teria evitado, porque o mercado livre castiga o mau crédito antes que ele vire epidemia. O Estado, não. O Estado renova, refinancia, perdoa, e quando o buraco aparece, manda a conta para o pagador de imposto, sem perguntar.

A cerca está plantada ali há décadas e ninguém pergunta mais por que foi erguida. Diz-se que o Norte precisa de crédito direcionado porque o mercado não atende a região. Curioso, porque os mesmos teóricos que afirmam isso são os que criaram, pela tributação confiscatória e pela insegurança jurídica, o ambiente que afasta o banco privado. Primeiro se sabota o mercado, depois se vende a estatização como solução para o vácuo que o próprio Estado criou. É a velha receita do incendiário virando bombeiro e cobrando hora extra pelo serviço. E enquanto a roda gira, os diretores nomeados desfilam em audiências, os fundos sindicais aplaudem, os deputados da bancada regional posam para foto, e a conta vai chegando, silenciosa, no boleto de luz, no preço do combustível, no imposto embutido em cada pacote de arroz.

Há quem ainda acredite que essa engrenagem produz desenvolvimento. Produz dependência, que é coisa diferente. Desenvolvimento real seria a região crescer com poupança própria, atraindo capital privado, gerando empresas competitivas que sobrevivem sem mamadeira federal. O que existe hoje é uma economia regional viciada em crédito subsidiado, incapaz de andar sozinha, porque toda vez que tenta, vem o gestor federal com mais um pacote, mais uma renegociação, mais uma fundação de fomento. O lucro caiu para R$47,5 milhões neste trimestre. Vai cair mais, vai subir, vai oscilar, e nada disso importa, porque o número é ficção contábil de uma operação que jamais sobreviveria à luz fria do cálculo econômico real. O banco da floresta não banca a floresta. Banca o sistema que precisa da floresta como pretexto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.