O BTG Pactual cortou o preço-alvo de BBAS3 e reconheceu, em relatório, que os próximos resultados do Banco do Brasil virão pressionados. A reação do mercado foi aquela coreografia conhecida, analista surpreso, investidor decepcionado, comentarista perplexo, como se a deterioração de um banco que carrega no balanço o agronegócio represado, a inadimplência crescente e a obrigação política de emprestar onde o cálculo privado não emprestaria fosse algum tipo de cisne negro. Não é. É cisne branco, gordo, anunciado em rede nacional há pelo menos dois anos, e quem fingiu não ver agora paga o ingresso da reprise.

Vale lembrar o arranjo. O Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista, o que na prática significa que tem acionista privado para colher prejuízo e controlador público para distribuir favor. Quando o governo precisa anunciar crédito subsidiado para o agro, é o BB que sai na frente. Quando precisa renegociar dívida de setor politicamente sensível, é o BB que estende prazo, perdoa juros, refinancia o irrefinanciável. O lucro pertence ao acionista nos anos bons, o ônus pertence ao acionista nos anos ruins, e a glória política pertence sempre ao Planalto. É um contrato leonino disfarçado de governança corporativa, e quem comprou a ação sabendo disso não pode reclamar de ter sido enganado, no máximo de ter se enganado sozinho.

A pressão nos resultados não cai do céu. Ela é a soma aritmética de decisões tomadas em Brasília e executadas na Esplanada do Andar Executivo. Provisão para crédito de difícil recebimento sobe porque a carteira foi inflada com tomador que o setor privado havia recusado. Margem financeira aperta porque a Selic alta encarece o funding ao mesmo tempo em que o ativo carrega taxas subsidiadas, fixadas em outro ciclo, com outra inflação, sob outra lógica. O resultado é o sanduíche clássico do banco estatal, custo de mercado no passivo, preço político no ativo, e o acionista no recheio.

Há ainda o detalhe que ninguém da casa quer mencionar em voz alta, o agronegócio. Safra problemática, preços de commodities oscilando, produtor endividado em dólar e faturando em real, e o BB como principal financiador do setor por imposição de mandato, não por escolha de risco. Quando o ciclo vira, e ele sempre vira, o banco que emprestou por obrigação descobre que provisão é matemática, não narrativa. Pode-se reescrever o release de resultados, não se pode reescrever a inadimplência. O balanço é o último lugar onde a propaganda oficial ainda esbarra na realidade, e por isso incomoda tanto.

O corte de preço-alvo do BTG é, portanto, menos uma análise e mais uma confissão tardia. O que se vê é a redução de múltiplos, a revisão de lucro projetado, o ajuste de recomendação. O que não se vê é o custo invisível pago todos os dias pelo brasileiro que não tem ação nenhuma do Banco do Brasil, mas financia, via imposto, via inflação e via Tesouro, o crédito subsidiado que destrói a rentabilidade da instituição. O acionista perde dividendo, o contribuinte perde poder de compra, e o político tira foto com o produtor rural beneficiado. Três pagam, um colhe, e ainda chamam isso de banco.

Me diz uma coisa, alguém honestamente acredita que existe almoço grátis nesse arranjo? Subsídio é propina disfarçada de política pública, banco estatal é caixa eleitoral disfarçado de instituição financeira, e relatório de corretora reconhecendo o óbvio dois anos depois é jornalismo econômico disfarçado de análise. O Banco do Brasil não está com problema, está cumprindo exatamente a função para a qual foi mantido sob controle estatal, transferir riqueza do acionista e do contribuinte para quem tem voto a oferecer. O resto é contabilidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.