As "fontes" do Banco do Japão sussurraram à imprensa aquilo que qualquer observador honesto já sabia: em abril, não sobe juro. A reunião será protocolar, o comunicado será redigido naquele idioma pastoso que os banqueiros centrais inventaram para dizer nada dizendo tudo, e o mundo fingirá que isso é política monetária. Não é. É paralisia disfarçada de prudência, travestida de ciência.
Quer dizer, estamos falando do país que passou quase três décadas com juros colados no zero, que inventou o quantitative easing antes dos americanos descobrirem o brinquedo, que comprou o próprio mercado de ações via ETFs, que transformou o banco central no maior credor do Tesouro nacional. Imprimiu iene até o braço doer e chamou isso de estímulo. O resultado dessa engenhoca keynesiana de décadas está aí: uma dívida pública de mais de 250% do PIB, demografia em colapso, produtividade estagnada e uma moeda que despenca sempre que o Federal Reserve decide respirar mais fundo.
E agora, quando o iene derrete, quando a inflação importada corrói o salário real do trabalhador japonês, quando todo manual sério de política monetária grita para subir juros, o que fazem? Adiam. De novo. Porque subir juros significa admitir que a dívida vai explodir, que os bancos estão sentados em títulos com prejuízo embutido, que as empresas-zumbi que só sobrevivem por crédito barato vão finalmente morrer. E nenhum burocrata vitalício quer carimbar o atestado de óbito do próprio esquema.
Siga o dinheiro e entenderá a hesitação. Quem ganha com juro zero eterno não é o aposentado japonês vendo sua poupança derreter, não é o jovem que não consegue comprar casa, não é o consumidor que paga mais caro no supermercado. Quem ganha é o Tesouro, que rola dívida impagável a custo zero; é o governo, que financia gastança sem sentir; é o setor financeiro encastelado em Tóquio, que vive do arbitrário e não do mérito. O custo invisível, aquele que ninguém vê porque está espalhado em trezentos milhões de decisões frustradas, recai sobre o cidadão comum. Sempre recai.
A verdade incômoda é que o Banco do Japão há muito deixou de fazer política monetária e virou braço fiscal do governo. A ficção da independência do banco central, que os livros de economia repetem como mantra, desaba diante do espelho japonês. Quando o emissor da moeda é prisioneiro do emissor de dívida, preço de nada mais é preço, é número inventado em comitê. E número inventado em comitê sempre, absolutamente sempre, termina em crise que os mesmos comitês juram não ter previsto.
Abril chegará, a decisão sairá, os analistas farão cara de surpresa entre aspas, e o teatro continuará. Mas o mercado, esse velho juiz implacável, já está cobrando. O iene fraco é a fatura. A inflação persistente é a fatura. A fuga silenciosa de capital japonês para ativos estrangeiros é a fatura. E quando o próximo choque chegar, e chegará, ninguém poderá dizer que não havia sinais. Havia. Estão piscando em vermelho há anos, só que ninguém na Kasumigaseki quer olhar para a luz.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.