Amir Khosru Mahmud Chowdhury, ministro das Finanças de Bangladesh, está em Washington segurando o chapéu na mão diante dos burocratas do Fundo Monetário Internacional. Oficialmente, negocia a continuidade de um pacote de 5,5 bilhões de dólares. Extraoficialmente, submete a soberania fiscal de 170 milhões de pessoas às condicionalidades que um comitê de tecnocratas, a milhares de quilômetros de Daca, considera adequadas. Chamam isso de "reformas-chave". O nome antigo, menos elegante, era tutela.

O enredo é conhecido porque se repete há setenta anos, da América Latina à África, do Sudeste Asiático ao Leste Europeu. Um governo gasta mais do que arrecada, imprime moeda para cobrir o rombo, assiste à fuga de capitais, queima reservas tentando defender a própria moeda e, quando o precipício chega, bate na porta do Fundo. O Fundo empresta, claro, mas exige em troca um pacote de ajuste que invariavelmente inclui cortar subsídios que beneficiam os pobres, aumentar impostos que atingem a classe média, desvalorizar a moeda que empobrece os salários e privatizar ativos que serão comprados por preços de liquidação. Os banqueiros internacionais aplaudem, a classe política local assina, e o povo paga. Sempre paga.

Olha, ninguém precisa ser especialista em balanço de pagamentos para entender o que aconteceu em Bangladesh. Durante anos, o governo gastou como se o dinheiro brotasse em árvore, financiou projetos de infraestrutura faraônicos, manteve subsídios energéticos politicamente convenientes, acumulou dívida externa em moeda forte enquanto a renda vinha em taka desvalorizável. A reserva cambial derreteu, a inflação corroeu o salário, o déficit se tornou insustentável. Agora, o mesmo Estado que criou o problema se apresenta como vítima e pede socorro ao credor de última instância. O credor, por sua vez, finge não saber que suas próprias décadas de política monetária frouxa em Washington foram combustível essencial para que países periféricos se endividassem em dólares baratos que agora precisam devolver em dólares caros.

O que não se vê nessa fotografia diplomática é o mais revelador. Não se vê o pequeno comerciante de Dhaka que vai pagar a nova alíquota de imposto sobre consumo. Não se vê a dona de casa que perdeu poder de compra quando a taka desvalorizou para atender a meta cambial acordada com o Fundo. Não se vêm as empresas estatais que serão vendidas por pechincha para fundos estrangeiros bem-relacionados com os mesmos funcionários que desenharam o pacote. Vê-se apenas o ministro sorrindo para a foto oficial, a nota técnica do FMI em papel timbrado, e a promessa de "modernização" que, na prática, significa que os próximos cinco anos de orçamento já foram escritos por gente que não vive ali.

E tem o ângulo mais desconfortável, aquele que os editoriais respeitáveis nunca tocam. Empréstimo do FMI não é ato de caridade nem operação técnica neutra. É instrumento geopolítico. Define em que moeda o país vai comerciar, com quem vai se alinhar, que tipo de reforma institucional vai adotar. Bangladesh, espremido entre a órbita chinesa e a influência indiana, com a Belt and Road soprando de um lado e o Quad do outro, não está apenas pedindo dinheiro. Está escolhendo padrinho. E quando se escolhe padrinho, aceita-se o batismo inteiro, inclusive as partes que ninguém leu em voz alta durante a cerimônia.

A lição, que deveria ser ensinada em todo curso de economia antes de qualquer equação diferencial, é brutalmente simples. Nenhum país fica dependente de empréstimo externo por acaso. Fica porque gastou demais, imprimiu demais, regulou demais, produziu de menos. E quando chega ao ponto de mendigar em Washington, a soberania já foi vendida em prestações silenciosas muito antes de a primeira nota técnica ser assinada. Bangladesh hoje, outro amanhã, e o Brasil sempre espiando a fila, fingindo que não é com ele.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.