A cena se repete com a regularidade de relógio suíço estragado. Um banco de investimento de Wall Street, desses que têm prédio próprio e analistas vestidos como se fossem ao casamento da própria irmã, publica um relatório ungindo uma empresa específica como a grande aposta de inteligência artificial num setor inteiro. Desta vez, a escolhida foi a BGC Group, corretora interdealer que, segundo a sabedoria revelada do Bank of America, encarna como ninguém a revolução da IA aplicada aos mercados de capitais. O leitor desavisado lê a manchete, abre o aplicativo da corretora e compra. O leitor avisado faz outra pergunta: quem é que está vendendo enquanto o relatório recomenda comprar?
Olha, o roteiro é tão batido que dava para vender em DVD na feira. Primeiro vem a narrativa tecnológica, irresistível, futurista, com palavras que ninguém precisa entender direito porque o brilho já basta. Depois vem o relatório de uma instituição respeitável validando a narrativa. Em seguida, o varejo entra eufórico, comprando na máxima. E, lá nos bastidores, quem montou posição meses antes começa a distribuir papel com sorriso largo. Não é teoria da conspiração, é mecânica de mercado documentada desde a mania das tulipas. A diferença é que hoje a tulipa fala inglês corporativo e usa a sigla AI.
Quer dizer, ninguém aqui está dizendo que a BGC é uma empresa ruim ou que IA aplicada à intermediação financeira seja invenção sem futuro. Provavelmente é o contrário. O problema não está na tecnologia, está na precificação do entusiasmo. Quando um ativo deixa de ser avaliado pelo fluxo de caixa que gera e passa a ser avaliado pela história que conta, você saiu do território da análise e entrou no território da fé. E fé, no mercado financeiro, costuma cobrar dízimo pesado de quem chegou por último ao templo.
Me diz uma coisa, por que será que toda vez que um banco grande aponta o dedo para o céu, milhões de pequenos investidores correm para olhar a direção em vez de perguntar por que o dedo foi apontado naquele momento, e não três meses antes? A resposta incomoda, mas é honesta: porque a indústria financeira moderna foi desenhada para que a informação relevante chegue em camadas, e a camada do varejo é sempre a última. O que para o investidor institucional é alocação tática, para o investidor de aplicativo vira oportunidade histórica. A diferença entre os dois é cronológica e custa caro.
Há ainda o pano de fundo macro, que ninguém comenta nessas recomendações com cara de prospecto. Vivemos uma década inteira de juros artificialmente esmagados, dinheiro fabricado às toneladas, valuations inflados por liquidez e não por produtividade. A IA virou o álibi perfeito para justificar múltiplos que, em qualquer ambiente monetário sadio, seriam considerados delirantes. Quando o crédito é barato demais por tempo demais, todo setor da moda parece eterno até o dia em que para de parecer. E aí o relatório que recomendava comprar some do site, substituído por outro, com nova sigla, novo tema, mesma engrenagem.
Fica a regra que ninguém ensina na faculdade de economia, mas que qualquer comerciante de feira aprendeu aos doze anos: quando o vendedor está animado demais para te empurrar a mercadoria, desconfie do estoque. O mercado de capitais não é diferente do mercado de hortifruti, só tem gravata melhor e vocabulário mais sofisticado. A inteligência artificial vai mudar o mundo, sim. Não significa que toda ação com a sigla pendurada vá enriquecer você. Significa, na maioria das vezes, exatamente o contrário.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.