Dez mil quinhentos e trinta dólares. O número parece pequeno, quase ridículo de tão modesto, mas é justamente nesses gestos contidos que mora a inteligência do dinheiro grande. O Bank of America e a Merrill Lynch, dois braços do mesmo polvo financeiro, decidiram aliviar a mão em ações do Nuveen Municipal, um daqueles veículos que empacotam dívida de prefeituras e estados americanos e revendem ao público como se fossem o equivalente moderno do colchão da vovó. A pergunta que ninguém de terno faz na televisão é simples, e por isso mesmo proibida: por que estão saindo?
Títulos municipais sempre tiveram aquela aura de investimento de viúva, papel para quem quer dormir tranquilo sob o cobertor da isenção fiscal e da fé inabalável na solvência do governo local. Só que essa fé tem custo. Cidades americanas estão afundadas em passivos previdenciários impagáveis, infraestrutura podre, êxodo de contribuintes e prefeituras governadas por gente que aprendeu finanças públicas em curso de fim de semana. Chicago, Illinois inteiro, partes da Califórnia, recantos de Nova York, todos carregando promessas de aposentadoria que matemática nenhuma sustenta. Quando o banco de investimento começa a se desfazer mansamente do papel, não é por capricho de algoritmo. É leitura de cenário.
Aqui entra a parte que o noticiário econômico de prateleira jamais conta: o mercado de dívida pública existe porque foi domesticado para existir. O governo precisa rolar gastança que não cabe na receita, então fabrica instrumento, batiza de seguro, concede vantagem tributária para induzir o aforrador a comprar, e fecha o ciclo cobrando imposto de quem produz para pagar juro a quem emprestou. É o esquema mais antigo do mundo travestido de modernidade financeira. E como todo esquema, depende de que a fila do otário nunca acabe.
O cidadão comum não consegue ver o que se vê e principalmente não consegue ver o que não se vê. Vê o rendimento isento de imposto federal estampado no prospecto. Não vê o calote silencioso que a impressora de moeda já cobrou via inflação dos últimos cinco anos. Vê o nome bonito do fundo. Não vê que o gestor profissional, aquele mesmo que vendeu o produto sorrindo, está agora reduzindo posição no balcão ao lado. Vê segurança. Não vê que a verdadeira segurança nunca esteve em papel emitido por quem tem o monopólio de imprimir o lastro desse mesmo papel.
Tem ainda o detalhe quase cômico de duas instituições do mesmo grupo aparecendo separadamente na lista de vendedores, como se fossem agentes independentes do destino. Merrill Lynch foi engolida pelo Bank of America em 2008, no auge da crise que esses mesmos bancos ajudaram a criar e da qual saíram premiados com socorro pago pelo contribuinte. Hoje operam como dois rostos da mesma máscara, e quando ambos resolvem aliviar exposição ao mesmo tempo, a coincidência tem nome técnico: aviso. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.
O recado, para quem ainda tem juízo, é o de sempre e o que ninguém quer escutar. Dívida pública não é poupança, é confisco com data marcada. Isenção fiscal não é generosidade, é isca. E quando os profissionais começam a sair pela porta dos fundos enquanto a orquestra ainda toca para o salão lotado, o destino do baile está escrito. Quem vende dez mil hoje, vende dez milhões amanhã, e a conta sobra para o sujeito que acreditou no folheto.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.