O Banner Corporation, holding do Banner Bank, anunciou a compra do Pacific Financial Corporation por US$ 177 milhões pagos integralmente em ações. Mais uma operação de papel trocando de mão, mais uma instituição regional do noroeste americano sendo absorvida por um peixe maior, e o noticiário financeiro registra o fato com aquela neutralidade asséptica de quem informa o resultado de um jogo de futebol. Só que aqui não há jogo, há um movimento tectônico que se repete ano após ano sem que ninguém se dê ao trabalho de perguntar por que diabos isso acontece com tanta regularidade.

A resposta está onde ninguém olha, no emaranhado regulatório que Washington construiu camada sobre camada desde 2008. Cada nova exigência de compliance, cada novo formulário, cada novo executivo de risco que precisa ser contratado para cumprir as mil páginas de Dodd-Frank, Basileia III e regulamentações estaduais funciona como uma muralha que protege o grande do pequeno. O banco regional de Washington ou Oregon que atendia trezentos clientes locais não consegue diluir esse custo fixo monstruoso em uma base de receita modesta. O gigante consegue. Resultado: o pequeno vende, o grande compra, e os burocratas que escreveram as regras posam de defensores do consumidor.

Olha, ninguém precisa ser gênio para entender o mecanismo. Quando você cria uma indústria onde o custo de existir legalmente é proibitivo, você está, por construção, expulsando quem não tem escala. É a mesma lógica do salário mínimo elevado que destrói o emprego juvenil, do imposto sobre pequenos negócios que beneficia a multinacional, da obra pública faraônica que só a empreiteira amiga do regime consegue tocar. O efeito visível é uma fusão amigável entre dois bancos americanos. O efeito invisível, e este é o que importa, é o cliente do interior que daqui a cinco anos terá uma agência a menos, um gerente que não conhece seu nome, e tarifas mais altas porque a concorrência local evaporou.

Pague atenção ao detalhe da transação ser feita em ações, não em dinheiro. Isso não é detalhe técnico, é o coração do arranjo. Quando o Banco Central despeja liquidez na economia há mais de uma década e infla os preços de ativos financeiros até a estratosfera, papéis se tornam moeda mais valiosa que moeda. O Banner não precisa desembolsar nada de produtivo, basta imprimir mais ações próprias e trocar por um concorrente. É a alquimia monetária do nosso tempo, transformar inflação de ativos em poder de mercado real, e o cidadão comum que poupou a vida inteira em uma caderneta paga a conta em juros reais negativos.

Vão dizer que a fusão gera sinergias, eficiência, valor para o acionista. Repetirão essa ladainha em comunicados, conferências e relatórios trimestrais até a exaustão. Mas a verdade simples é que mercado bancário americano hoje tem menos da metade dos bancos que tinha em 1990, e ninguém com dois neurônios funcionais pode olhar para isso e concluir que o consumidor saiu ganhando. A concentração foi planejada, não emergiu espontaneamente, e cada nova fusão é um tijolo a mais no muro que separa o cidadão das opções que o mercado livre lhe daria de graça.

O capitalismo de compadrio não precisa de pacto explícito entre banqueiros e reguladores, basta que as regras sejam escritas de modo a favorecer quem tem advogado caro. E aí o ciclo se completa: regulação cria barreira, barreira cria concentração, concentração cria poder político, poder político cria mais regulação. Quando o último banco regional independente for engolido, vão nos dizer que era inevitável. Não era. Era projeto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.