O Barclays anunciou cobertura das ações da Fortis com recomendação acima do mercado, e o noticiário tratou a notícia como se fosse descoberta científica. Não é. É rito. Banco grande inicia cobertura de utility regulada com viés positivo aproximadamente da mesma forma que padre abençoa colheita: previsível, cerimonial, e útil para quem está vendendo. A Fortis é uma holding canadense de energia elétrica e gás natural cujo lucro não nasce da concorrência, nasce de tabela. Os reguladores provinciais determinam a taxa de retorno permitida sobre o capital investido, e a empresa, dentro daquele envelope, executa. É um negócio bonito, estável, quase imune a recessão, e exatamente por isso é caro. Quem recomenda é Barclays. Quem paga a conta da tarifa é o sujeito do interior de Alberta que liga o aquecedor em fevereiro.

Olha, o ponto que ninguém quer dizer em voz alta é o seguinte: utility regulada não é empresa de mercado, é arranjo político vestido de papel timbrado. O acionista da Fortis está, na prática, comprando um fluxo de caixa garantido por decreto. O risco operacional existe, claro, mas o risco de demanda é mínimo, o risco de preço é repassado, e o risco regulatório é o único que importa de verdade, e esse risco é gerenciado em jantares, audiências públicas e campanhas eleitorais. Quando um analista de Londres escreve que a empresa tem "perfil defensivo" e "fluxo previsível", está dizendo, sem dizer, que a empresa tem captura regulatória bem azeitada. Defensivo contra o quê? Contra o consumidor poder escolher outro fornecedor. É isso que significa.

Me diz uma coisa, por que um banco inicia cobertura justo agora? Cobertura de sell-side não é caridade intelectual. Banco que abre cobertura quer mandato. Quer estar na próxima emissão de dívida, na próxima oferta secundária, no próximo follow-on, no próximo hedge cambial da tesouraria da empresa. A nota de "acima do mercado" é o cartão de visitas. É o lobista entrando pela porta da frente com gravata e planilha. Quem acompanha o setor há tempo suficiente sabe que a sequência é quase litúrgica: cobertura iniciada, preço-alvo elevado seis meses depois, emissão de papel um ano depois, e Barclays no topo do bookrunner. Siga o dinheiro e a trama se desenha sozinha.

Tem outra coisa que precisa ser dita, e essa coisa o consenso macroeconômico finge não enxergar. Utilities reguladas viraram queridinhas globais porque o juro real está sendo achatado pelos bancos centrais e porque os fundos de pensão precisam desesperadamente de fluxo previsível para casar com passivos atuariais. Tradução: a recomendação positiva da Fortis não é elogio à Fortis, é sintoma de uma economia mundial onde o capital fugiu do risco produtivo e foi se refugiar em quase-monopólios chancelados pelo Estado. É a tal expansão monetária artificial fabricando demanda por ativos que, em condições normais de pressão e temperatura, seriam apenas razoáveis. Bom para o acionista de hoje. Péssimo para a alocação de capital da civilização inteira.

E há ainda o pequeno detalhe canadense, que poucos comentam. A Fortis opera num país que se vende como livre-mercado e funciona como cartório. Toda a infraestrutura crítica canadense, energia, telecom, transporte aéreo, bancos, vive sob proteção regulatória que beira o cômico. Cinco bancos dominam o sistema financeiro, três operadoras dominam telecom, um punhado de utilities domina energia, e nenhum deles enfrenta concorrência de verdade. O resultado é uma economia que parece estável porque é estagnada, e parece próspera porque os incumbentes nunca quebram. O acionista de Toronto adora. O empreendedor canadense que tentaria entrar nesses setores aprendeu, há décadas, a se mudar para Houston ou para o Vale do Silício. É essa a "estabilidade" que o Barclays está vendendo embrulhada em PDF de quarenta páginas.

Então, para o leitor que veio aqui buscar a tal recomendação: faça o que quiser com seu dinheiro, é seu, é direito seu, e quem escreve aqui não dá palpite de portfólio. Mas não confunda análise de banco com análise da realidade. O relatório do Barclays é peça comercial bem produzida, e a Fortis é, sim, um negócio sólido dentro do arranjo em que opera. Só não chame isso de capitalismo. Capitalismo é o sujeito arriscando capital próprio para servir o consumidor que pode dizer não. O que existe na Fortis, e em noventa por cento das utilities listadas no mundo, é outra coisa: é renda fixa disfarçada de ação, garantida pelo poder de polícia tarifária do Estado. Quando o relatório vira manchete, o investidor desavisado compra. Quando a tarifa sobe no inverno, o consumidor paga. E o banco, esse, fatura nas duas pontas.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.