O Barclays bateu o martelo e reiterou classificação acima da média para as ações da United Airlines, e imediatamente uma legião de analistas repetiu a notícia como se tivesse saído fumaça branca no Vaticano financeiro. É assim que funciona o teatro do mercado moderno, um banco global emite opinião, a imprensa especializada transcreve, gestores de fundos ajustam posições, e no fim do dia a cotação se move não porque algo mudou na realidade operacional da companhia, mas porque alguém com terno caro disse que ia mudar. O fato concreto é singelo, uma recomendação. O resto é liturgia.

Convém lembrar, porque a memória do investidor é curta como prazo de validade de iogurte, que o setor aéreo americano é um dos mais intervencionistas do planeta. Em 2020, as companhias receberam dezenas de bilhões de dólares em socorro federal, grants a fundo perdido, empréstimos subsidiados, apoio à folha de pagamento. Foi bilhete premiado, pago com dinheiro de contribuinte que nunca entrou numa sala VIP e provavelmente nunca entrará. As ações sobem hoje em cima de um balanço que existe porque o contribuinte americano bancou o prejuízo quando o vento virou. Privatizam-se os lucros, socializam-se as perdas, e o analista do banco classifica isso como desempenho acima da média. Classificaria mesmo, é o resultado esperado quando se joga pôquer com as fichas dos outros.

Siga o dinheiro e o retrato fica mais nítido. Os grandes bancos que emitem recomendações sobre companhias aéreas não são observadores neutros contemplando o cosmos das finanças; são bancos de investimento que prestam serviços, estruturam dívida, fazem hedge de combustível, colocam emissões, e ocasionalmente tomam posições próprias. Recomendação favorável é também sinalização institucional, bilhete amigável para a sala ao lado, convite para o próximo mandato de assessoria. Não é conspiração, é apenas como o arranjo funciona. Quem espera análise desinteressada de um banco que fatura com o cliente coberto está procurando virgindade em casa de tolerância.

Há ainda a variável que ninguém quer olhar de frente, o preço do combustível e o que há por trás dele. Companhias aéreas são dependentes umbilicais da política monetária e da política energética, duas áreas hoje presididas por planejadores centrais que acreditam conseguir ajustar juros, oferta de moeda e matriz energética como quem afina um violão. O resultado dessa fé tecnocrática é conhecido, ciclos artificiais de euforia seguidos de ressacas devastadoras, e o setor aéreo costuma estar entre os primeiros a levantar a mão nas filas de socorro quando o ciclo vira. A recomendação atual é uma fotografia tirada no topo da montanha-russa, é bonita, mas não diz absolutamente nada sobre o trilho descendo.

Existe também o que não se vê. Atrás da tese otimista, há capacidade instalada financiada a juros reprimidos por uma década, há sindicatos fortíssimos negociando contratos retroativos, há infraestrutura aeroportuária pública em decomposição, há regulação federal que encarece cada parafuso certificado. Cada uma dessas variáveis é uma bomba-relógio calibrada pela mão do Estado, e o analista que olha só para múltiplos de EBITDA está lendo a bula ignorando o efeito colateral em letra miúda. A pergunta honesta não é se a United vale mais hoje, é quanto dela foi construído em terreno firme e quanto foi construído em areia subsidiada.

No fim, recomendação de banco é o que sempre foi, opinião travestida de ciência, interesse travestido de análise, expectativa travestida de profecia. Quem quer investir em companhia aérea americana que faça, é livre para tanto, e a liberdade de errar com o próprio dinheiro é uma das mais sagradas que existem. Só não peça ao contribuinte que cubra o rombo na próxima crise, porque essa conta já foi paga vezes demais por quem nunca subiu no avião. O mercado aéreo voa alto quando o vento sopra a favor do subsídio; quando o vento vira, cai como qualquer outro setor que esqueceu de aprender a andar sozinho.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.