O comunicado saiu com aquele tom asséptico de quem comenta o tempo, a materialização de risco aumentou no crédito às famílias. Tradução para o português que se fala na padaria, está aumentando o número de gente que pegou empréstimo e não está conseguindo pagar. E o autor do diagnóstico, veja o paradoxo delicioso, é justamente a instituição que segurou juros artificialmente baixos por tempo demais, depois subiu para conter a inflação que ela mesma ajudou a fabricar, e agora observa, com cara de espectador, o crédito virar uma armadilha para milhões de brasileiros que apenas aceitaram o convite que lhes foi feito.

Quer dizer, a coisa funciona assim. O governo expande gasto, o Tesouro emite dívida, o Banco Central faz a mágica monetária para que a taxa caiba no orçamento político do momento, e o crédito barato escorre pela economia como vinho em festa de formatura. Famílias que nunca deveriam ter tomado financiamento de cinco anos para comprar geladeira parcelam o supermercado em doze vezes. O varejo comemora, a Faria Lima comemora, o ministro comemora, o presidente faz live celebrando, e quando a poeira começa a baixar, descobrimos que metade do consumo era ilusão financiada, e a outra metade era ilusão subsidiada.

O detalhe que ninguém comenta nos jornais grandes é simples, ninguém ficou rico nesse arranjo, exceto quem deveria. Os bancos lucraram com spreads obscenos, as fintechs torraram capital captando rotativo do cartão a taxas que fariam corar um agiota da década de 1970, e o governo coletou imposto sobre toda essa orgia de consumo financiado. O trabalhador, esse, ficou com o boleto. Siga o dinheiro e você verá que a inadimplência da família é a margem de lucro de alguém, sempre.

E agora vem a parte que dá vontade de rir para não chorar. O mesmo Banco Central que monitora o risco vai propor, em algum momento dos próximos meses, alguma nova regulação para proteger o consumidor. Mais cadastro positivo, mais limite, mais carência, mais comitê, mais portaria. Ou seja, a solução para o problema causado pela intervenção será mais intervenção. É o ciclo perfeito, fabricar o incêndio, vestir uniforme de bombeiro, cobrar pelo resgate e ganhar medalha no fim. Funcionou no século passado, funciona neste, e funcionará no próximo se ninguém parar para enxergar o truque.

O que o brasileiro precisa entender, e ninguém vai ensinar na rede aberta, é que crédito não é riqueza. Crédito é riqueza futura antecipada, e quando você antecipa demais o futuro, descobre que o futuro chegou cobrando juros compostos. Toda vez que uma autoridade celebra o crescimento do crédito como sinal de prosperidade, está celebrando que mais gente está hipotecando o amanhã para sustentar o hoje. Nenhuma família ficou rica devendo mais. Nenhum país ficou desenvolvido emprestando mais. E nenhuma economia se sustentou indefinidamente fingindo que o Banco Central inventa valor com um clique no teclado.

O risco materializou porque o risco sempre materializa, esse é o nome do jogo. A pergunta que importa não é se a inadimplência vai subir, ela vai, está nos números. A pergunta é quanta gente vai descobrir, tarde demais, que o crédito fácil de ontem é a penhora de hoje, e que o boleto continua chegando muito depois que o político que prometeu prosperidade já saiu de cena, sorridente, para a próxima palestra paga.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.