Frankfurt anunciou ontem, com a solenidade burocrática de quem lê boletim meteorológico, que as taxas de juros permanecem onde estavam e que, infelizmente, a inflação ainda incomoda e o crescimento ainda decepciona. Traduzindo do dialeto dos comunicados oficiais para o português dos mortais, o recado é o seguinte, eles imprimiram trilhões durante uma década, financiaram governos perdulários a juro negativo, distorceram cada preço relevante do continente, e agora aparecem em rede nacional fingindo surpresa diante das consequências. É o piromaníaco contratado como bombeiro pedindo paciência ao público enquanto a casa arde.

Quem prestou atenção nos últimos quinze anos sabe que essa cena já tem roteiro. Primeiro a expansão monetária artificial empurra o crédito para baixo, infla bolha em imóvel, em ação, em dívida soberana de país que não pagaria seus boletos sem a impressora ligada. Depois vem o boom alegre, com burocrata de Bruxelas dando entrevista sobre como dominaram o ciclo econômico. Em seguida chega o bust inevitável, e o mesmo burocrata aparece de cara fechada dizendo que ninguém poderia ter previsto. Previa quem leu três livros sérios de economia em vez de relatórios do FMI.

O detalhe que a imprensa europeia engole sem mastigar é a função real desse juro mantido no limbo. Não se trata de combater inflação, se fosse esse o objetivo o juro subiria de verdade, doeria de verdade, purgaria o sistema. Trata-se de não quebrar os Estados membros endividados até o pescoço, Itália na frente, França logo atrás, que não sobrevivem a custo de rolagem realista. O banco central virou departamento de financiamento dos tesouros nacionais, e o eurocrata de gravata cara sabe disso melhor que ninguém. Siga o dinheiro e você encontra o esquema, o contribuinte alemão financiando, via inflação disfarçada, a farra fiscal do clube mediterrâneo.

E há o que ninguém mostra na manchete, os pequenos poupadores que viram seu dinheiro derreter ano após ano enquanto o noticiário celebra que a inflação caiu de oito para três por cento, como se três por cento fosse vitória e não confisco silencioso. A senhora aposentada em Lisboa não tem hedge cambial nem ETF de ouro, ela tem caderneta, e a caderneta apanha em silêncio enquanto os economistas de banco aplaudem a serenidade do presidente do BCE. O que se vê é a estabilidade do gráfico, o que não se vê é o purgatório do orçamento doméstico de cento e quarenta milhões de europeus.

O mais cômico, ou trágico dependendo do humor do dia, é o alerta sobre desaceleração do crescimento vindo da mesma instituição que regula tudo que se mexe no continente, que aprovou a agenda verde mais cara da história, que sustenta sindicato improdutivo com subsídio cruzado, que exige relatório de sustentabilidade até para padaria de bairro. Espantam-se com o cavalo cansado depois de amarrar três sacos de pedra no lombo dele. A economia europeia não está desacelerando por acidente cósmico, está desacelerando porque foi desenhada por planejadores que nunca produziram um parafuso na vida e acreditam piamente que sabem alocar capital melhor que milhões de empreendedores reais.

A lição segue ignorada porque é desconfortável. Banco central não conserta crise, fabrica a próxima. Juro decretado por comitê é preço de planejamento central, e preço de planejamento central sempre mente. Enquanto a Europa aceitar que cinco pessoas numa sala em Frankfurt decidam o custo do dinheiro de meio bilhão de habitantes, vai continuar oscilando entre estagnação e inflação, vendendo isso como sofisticação técnica. É a velha servidão pintada de moderna, com PowerPoint bonito e gravata italiana.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.