A B&G Foods, dona de marcas centenárias de supermercado americano, acaba de precificar uma oferta de notas sênior garantidas de US$ 475 milhões com cupom de 11% ao ano. Releia a frase com calma. Não é startup queimando caixa, não é mineradora de cobalto no Congo, não é fintech sem receita. É a empresa que enche prateleira de mercado com tempero, picles e cobertura de panqueca pagando juros que, em qualquer manual decente, sinalizam socorro de pronto-socorro financeiro. O comunicado oficial fala em refinanciamento, gestão de passivo, otimização da estrutura de capital. Tradução honesta, a empresa está rolando dívida velha a custo brutal porque a dívida velha venceu e ninguém mais empresta barato para quem se endividou demais na década anterior.
O ponto que ninguém na imprensa especializada quer dizer em voz alta é o seguinte. Durante quinze anos o banco central americano segurou juros artificialmente perto de zero, e empresas como esta foram empurradas, quase contra a própria prudência, a se alavancar até o pescoço comprando concorrentes, pagando dividendo gordo ao acionista e recomprando ação. Era o capitalismo zumbi, sustentado por crédito que não refletia escassez real de poupança, mas decreto burocrático de comitê. Agora que o mesmo comitê resolveu lutar a inflação que ele próprio fabricou, a maré desce e aparece quem estava nadando pelado. Onze por cento ao ano é a maré mostrando o corpo.
Olha, ninguém impôs alavancagem suicida na garganta da B&G. A administração escolheu. Escolheu porque o sistema todo premiou quem escolheu. Quem se endividou virou herói trimestral do mercado, quem foi prudente virou desempregado da diretoria. Esta é a perversão central do dinheiro fabricado em laboratório, ele recompensa a imprudência e pune a sobriedade até o dia em que a conta chega, e a conta sempre chega. Não existe almoço grátis, existe almoço empurrado para o futuro, e o futuro virou hoje.
Siga o dinheiro até o fim e a história fica ainda mais educativa. Quem comprar esta nota de 11% é, em larga medida, fundo de pensão e gestora institucional desesperada por rendimento depois de anos a fio de juro repressivo. O aposentado americano médio nem sabe, mas seu fundo de previdência está financiando uma empresa de conservas a taxa de risco soberano emergente, porque foi empurrado a isso pela engenharia monetária dos últimos vinte anos. O risco do desastre foi socializado dentro do sistema previdenciário enquanto o lucro da farra ficou na mão dos executivos que receberam bônus em ação valorizada por recompra alavancada. É o mesmo filme de 2008, só que mais lento e em prateleira de supermercado.
Quer dizer, este episódio aparentemente trivial de uma fabricante de molho de tomate é o sintoma exemplar de uma economia inteira que confundiu acesso a crédito com geração de riqueza. Capital de verdade vem de poupança real, de gente que produziu mais do que consumiu e emprestou o excedente. Capital fabricado vem da impressora, e quando a impressora desacelera, a estrutura inteira range. Cada ponto percentual a mais que esta empresa paga é capital que não vai virar fábrica nova, emprego, produto melhor. Vira apenas combustível para manter de pé um esqueleto financeiro que nunca deveria ter sido erguido naquela altura.
No fim das contas, 11% é só um número, mas é o número que o mercado, finalmente livre por alguns instantes da anestesia do banco central, atribui à verdade desta empresa. E a verdade, quando volta, cobra juro composto sobre cada ano em que foi adiada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.