A Bel Fuse precificou nesta semana uma oferta secundária de US$ 399 milhões, colocando ações a US$ 266 cada, e a imprensa financeira tratou o evento com o entusiasmo de quem aplaude o próprio dentista enquanto leva broca. O comunicado fala em fortalecer balanço, financiar aquisições, capturar oportunidades estratégicas, todo aquele vocabulário polido que os bancos de investimento ensinam nos primeiros dias do treinee. Por trás da prosa corporativa, contudo, existe uma operação bem mais prosaica, e quem segura o papel há mais tempo já entendeu a piada antes do parágrafo final do release.

Toda emissão secundária é, na sua essência aritmética, uma transferência. O bolo continua mais ou menos do mesmo tamanho no curto prazo, só que agora há mais garfos enfiados nele. O acionista que comprou a Bel Fuse em 2023 a preços bem mais modestos não votou nessa operação, não foi consultado sobre o valuation de US$ 266, e ainda assim viu sua fatia da empresa encolher por decreto da diretoria. É o mesmo princípio do banco central que imprime moeda, só que numa escala que cabe na bolsa de Nova York e veste terno italiano.

Olha, o detalhe interessante é o destino do dinheiro. Companhias que captam para investir em capacidade produtiva, com retorno marginal claramente acima do custo do capital, são uma coisa. Companhias que captam para fazer aquisições genéricas, num momento em que múltiplos de eletrônicos estão inflados pela tese da inteligência artificial, são outra coisa bem diferente. A Bel Fuse vinha de uma valorização agressiva, e nada estimula mais a sede por equity novo do que ver o próprio papel cotado em patamares que o fundador jamais imaginou. Quando o preço sobe, a tentação de vender a própria empresa em pedacinhos vira política corporativa.

Quer dizer, ninguém na sala de reunião vai admitir que está timing o mercado. Vão dizer que é prudência, que é otimização da estrutura de capital, que é preparar a companhia para um ciclo de oportunidades. A verdade é mais simples e menos elegante: quando alguém oferece US$ 266 por algo que custava US$ 70 dois anos atrás, você vende. E vende rápido, antes que o mercado descubra que a tese da escassez de componentes era menos eterna do que os analistas vendiam.

Existe ainda a questão dos bancos coordenadores, que nessas operações ganham nas duas pontas, sempre. Cobram fee gordo para precificar, cobram spread para distribuir, e ainda recomendam o papel para os mesmos clientes institucionais que vão sustentar a cotação no after market. É um arranjo tão antigo quanto Wall Street, e funciona porque ninguém na cadeia tem incentivo para denunciar. O acionista minoritário, esse paga e cala, porque vender agora seria realizar o prejuízo da diluição, e segurar significa torcer para que a tese estratégica se confirme num horizonte que ninguém especifica.

O mais sintomático é a reação da praça, que recebeu a notícia como se fosse boa nova. Capital novo entrando sempre soa positivo para quem não fez a conta da participação relativa. É a mesma psicologia de quem comemora aumento de salário sem checar o que aconteceu com o poder de compra da moeda no mesmo período. Você fica mais rico no número, mais pobre na realidade, e ainda agradece quem te empobreceu. Capitalismo de balcão funciona assim quando ninguém está olhando, e ninguém nunca está olhando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.