A Belite Bio, uma biotech de porte modesto listada nos Estados Unidos, acaba de submeter à agência regulatória japonesa o pedido de aprovação do Tinlarebant, droga oral desenhada para frear a doença de Stargardt, uma degeneração macular hereditária que rouba a visão de adolescentes e jovens adultos antes que a vida propriamente comece. É a primeira submissão regulatória da companhia no mundo, e ela escolheu Tóquio como porta de entrada. Repare no detalhe: uma empresa pequena, com caixa contado, atacando primeiro o mercado japonês porque lá, contra todas as expectativas, o caminho regulatório para doenças raras é menos hostil do que nos Estados Unidos ou na Europa. Já diz alguma coisa sobre o estado da arte no Ocidente.
A doença de Stargardt afeta cerca de uma em cada dez mil pessoas. É pouco em termos estatísticos, é uma catástrofe em termos individuais. Não existe tratamento aprovado. Zero. Nada. Décadas de agências, comitês, painéis, consultas públicas, taxas regulatórias milionárias, e o resultado concreto para o paciente que hoje enxerga borrado é exatamente o que ele veria se vivesse no século dezenove: absolutamente nada. Enquanto isso, essas mesmas agências consomem orçamentos bilionários, empregam exércitos de burocratas e produzem regulamentos que só as multinacionais gigantes conseguem cumprir. O sistema que se vende como protetor do paciente é, na prática, um filtro que elimina toda concorrência pequena e mantém os monopólios farmacêuticos confortáveis.
Siga o dinheiro e a história fica mais clara. Cada ensaio clínico de fase três para uma doença rara custa entre cem e trezentos milhões de dólares, boa parte drenada por exigências regulatórias que nada têm a ver com segurança real do paciente e tudo a ver com liturgia burocrática. Quem paga essa conta? No fim, o consumidor, via preço absurdo do medicamento quando ele finalmente chega ao mercado, ou o contribuinte, quando o Estado compra a droga para os sistemas públicos e passa o boleto adiante. E quem lucra com o custo de entrada estratosférico? Não é o paciente, não é o cientista, não é a pequena empresa inovadora. São os incumbentes que já pagaram esse pedágio e agora usam a barreira regulatória como muralha contra qualquer concorrente novo.
O caso da Belite escancara também a hipocrisia da narrativa oficial sobre pesquisa e desenvolvimento. Dizem que precisamos de Estado forte para financiar ciência básica, de agências poderosas para garantir segurança, de política industrial para proteger campeões nacionais. Muito bem. E o resultado desse arranjo trilionário é que uma empresa privada, com capital de risco privado, testando molécula descoberta em laboratório privado, precisa procurar no Japão o oxigênio que o próprio Ocidente sufoca. Não foi o Ministério da Saúde de nenhum país que financiou o Tinlarebant. Foi gente disposta a arriscar dinheiro próprio na esperança de retorno futuro, o mesmo mecanismo vulgar de mercado que os intelectuais de sempre desprezam nas colunas de opinião enquanto usam remédios criados exatamente por ele.
A doença de Stargardt tem um agravante moral que o burocrata gosta de ignorar. Ela cega jovens. Um adolescente diagnosticado hoje que precisa esperar mais cinco, oito, dez anos até uma aprovação regulatória do Ocidente é um adolescente que perde a visão útil enquanto o processo tramita. O que se vê é a agência cumprindo protocolo, o comitê deliberando, o painel de especialistas se reunindo. O que não se vê é o rapaz de dezessete anos que não vai mais dirigir, não vai ler o rosto do próprio filho, não vai ver o pôr do sol. Esse custo invisível não entra em planilha nenhuma, não aparece em relatório de eficiência, mas é o custo real da lentidão regulatória travestida de zelo.
Que a Belite triunfe no Japão e depois em toda parte, e que o episódio sirva de bofetada para quem ainda acredita que agência grande é sinônimo de povo bem cuidado. Enquanto os ministérios se congratulam por proteger os cidadãos deles próprios, uma biotech pequena vai lá e faz o que importa: entrega um remédio para quem está ficando cego. A liberdade de inovar salva mais vidas do que qualquer regulamento jamais salvou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.