A Bellway, uma das maiores construtoras de casas do Reino Unido, comunicou ao mercado a chegada de Philip Harrison ao seu conselho na condição de diretor não executivo. O nome veio acompanhado da liturgia habitual desses anúncios, currículo robusto, experiência financeira, governança, blá-blá-blá. Olha, ninguém compra ação de construtora porque um senhor distinto sentou na cadeira do canto da sala. Compra-se construtora quando se acredita que vai existir gente capaz de comprar casa. E é aí que a história deixa de ser sobre Harrison e passa a ser sobre o cadáver do mercado imobiliário britânico.
Quer dizer, a Bellway opera num país onde o Banco da Inglaterra passou anos derramando crédito barato como se estivesse molhando jardim na seca, inflou o preço dos imóveis a níveis que a classe média jamais alcançaria com salário honesto, e depois subiu juros para conter a inflação que ele mesmo fabricou. O resultado todo mundo viu, hipotecas inviáveis, demanda evaporada, canteiros de obra parados, lucros despencando. A construtora então faz o que toda empresa grande faz quando o chão treme, reorganiza o teatro de governança e espera que o investidor se distraia com a coreografia.
Me diz uma coisa, alguém acredita seriamente que o problema da Bellway é falta de um diretor independente a mais? O problema da Bellway é que cada tijolo assentado na Inglaterra carrega imposto sobre imposto, taxa de planejamento que demora anos, regulação ambiental que multiplica custo, e um sistema de zoneamento herdado da era do pós-guerra que torna terreno urbano artificialmente escasso. Não é mercado livre que faz casa custar uma fortuna em Londres, é o Estado britânico decidindo, parágrafo por parágrafo, quem pode construir o quê e onde. Escassez decretada por canetada vira lucro extraordinário para quem já está dentro e barreira intransponível para quem está fora.
E aqui aparece o truque que poucos enxergam. Quando o governo encarece a construção via regulação e ao mesmo tempo subsidia a demanda via programas como o velho Help to Buy, o resultado não é casa mais barata para o trabalhador, é casa mais cara com o contribuinte pagando a diferença. O subsídio que parecia bondade era, na verdade, uma transferência silenciosa do pagador de impostos para o balanço das construtoras e dos bancos hipotecários. A Bellway lucrou com isso por anos. Agora que a torneira fechou, descobre-se que o castelo era de cartas e nenhum diretor não executivo, por mais competente que seja, ressuscita demanda que foi assassinada pelo próprio Tesouro.
Há ainda o detalhe cultural, que o noticiário econômico nunca toca. O Reino Unido construiu, ao longo de décadas, uma mentalidade segundo a qual casa não é abrigo, é ativo financeiro de aposentadoria. Famílias inteiras apostaram a vida na valorização perpétua do imóvel, um esquema que só funciona enquanto o Banco Central mantiver a impressora ligada. Quando a música para, e ela sempre para, sobra geração jovem morando com os pais aos trinta e cinco anos e construtoras anunciando trocas de cadeira no conselho como se isso fosse notícia.
A verdade nua é que nenhuma reorganização de governança corporativa resolve o que governo e banco central quebraram. Bellway pode nomear dez Harrisons, vinte Harrisons, um conselho inteiro de Harrisons, e ainda assim a casa britânica continuará cara demais para quem trabalha e barata demais para quem especula com dinheiro emprestado a juro subsidiado. O remédio não está no organograma da empresa, está no encolhimento radical do Estado que sufoca a oferta e infla a demanda ao mesmo tempo. Enquanto isso não acontecer, anúncios como este são apenas rearranjo de almofadas no Titanic.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.