A Benchmark subiu o preço-alvo da Humacyte e o mercado fez o que sempre faz quando um analista de boutique aponta para o céu, olhou para cima sem perguntar para onde estava sendo levado. A tese é simples na superfície, a empresa fabrica vasos sanguíneos bioengenheirados e está se posicionando para fatiar o mercado de acesso vascular em pacientes de diálise, um nicho que cresce na mesma velocidade em que a população envelhece, engorda e desenvolve diabetes em escala industrial. Até aí, biotecnologia legítima, ciência interessante, empresa pequena com produto real. O problema não está na Humacyte, está no ecossistema que torna essa aposta tão suculenta.

Quer dizer, o mercado de diálise nos Estados Unidos não é um mercado, é um arranjo. Desde os anos setenta o governo americano cobre praticamente todo paciente renal crônico via Medicare, independentemente de idade, independentemente de renda, independentemente de qualquer coisa. Foi a primeira vez que Washington decidiu universalizar a cobertura de uma doença específica e o resultado foi exatamente o que qualquer pessoa com dois neurônios funcionando previu, os preços explodiram, duas empresas privadas dominaram o setor inteiro e hoje engolem dezenas de bilhões anuais do contribuinte americano para tratar uma doença que poderia, em boa parte, ser prevenida com escolhas alimentares menos catastróficas. Toda vez que uma startup como a Humacyte aparece com promessa de melhorar o acesso vascular, o que o analista está realmente precificando não é a tecnologia, é a garantia de que o pagador final tem cheque em branco e não pode dizer não.

Olha, ninguém na Benchmark vai escrever isso no relatório, mas a lógica é cristalina. Quando você sabe que o governo paga, qualquer melhoria marginal vira ouro, porque não existe consumidor real fazendo a conta de custo e benefício. O paciente não escolhe, o médico prescreve, a clínica fatura, o contribuinte paga e o acionista comemora. É a versão sanitária do capitalismo de compadrio, com a diferença de que aqui a vítima é sempre a mesma, o sujeito que trabalha, recolhe imposto e nunca vai ver onde o dinheiro dele foi parar.

E não é por maldade das empresas, é por desenho do sistema. Quando o preço é desconectado da decisão de quem usa, a inovação migra para onde a margem está garantida, não para onde a necessidade é maior. Por isso temos vasos bioengenheirados sofisticadíssimos para diálise enquanto pesquisa básica em prevenção renal continua subfinanciada, por isso o tratamento de doença avançada vira indústria bilionária enquanto educação alimentar é piada de campanha publicitária. O mercado responde ao incentivo, e o incentivo, neste caso, foi desenhado por burocrata em Washington meio século atrás.

A Humacyte pode ser uma empresa boa, o produto pode até funcionar, o preço-alvo da Benchmark pode até se confirmar. Mas o investidor honesto precisa entender que está apostando menos em ciência e mais em política, está comprando exposição a um fluxo de caixa garantido pelo Tesouro americano enquanto o Tesouro americano caminha alegremente para uma crise fiscal que nenhum analista de boutique gosta de mencionar em relatório. Quando essa conta chegar, e ela vai chegar, os preços-alvo de hoje vão parecer piada de mau gosto.

No fim das contas, a história da Humacyte é a história contada em miniatura de toda uma economia capturada, ciência real travestida de aposta especulativa, inovação genuína convertida em ativo financeiro, e o contribuinte, sempre o contribuinte, segurando a vela enquanto Wall Street brinda. O analista subiu o preço-alvo, o papel vai subir, alguém vai ganhar dinheiro. E em algum lugar, um aposentado que pagou imposto a vida inteira vai continuar sem saber que financiou, sem nunca ter sido consultado, o próximo trimestre brilhante de uma biotech que ele nunca ouviu falar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.