A cena é deliciosa de tão repetida que ninguém mais nota. Uma corretora americana publica relatório elogiando os números do primeiro trimestre da NetEase, segunda maior empresa de games da China, e mantém a recomendação de compra como quem confirma que o sol nasceu no leste. Os jornais financeiros reproduzem o telegrama da agência, o investidor de varejo lê o título no aplicativo do banco, e a engrenagem segue rodando. Ninguém pergunta a coisa mais elementar: por que uma empresa que opera sob a tutela absoluta do Partido Comunista Chinês é tratada como se fosse uma padaria de Indiana com governança transparente?
O ponto não é se a NetEase fez bons números no trimestre. Provavelmente fez. Quando o regulador é também o sócio oculto, quando as licenças para lançamento de jogos saem ou não saem conforme o humor político do mês, e quando o concorrente pode ser fechado por decreto na quarta-feira que vem, é claro que quem sobra produz lucro. Monopólio assistido sempre dá margem. O que o relatório otimista não conta, porque não convém, é que o valor daquela ação depende de uma variável que nenhum analista quantitativo consegue modelar, que é o capricho de um regime que já demonstrou destruir trilhões em valor de mercado em uma única tarde quando resolveu disciplinar o setor de tecnologia em 2021.
Aqui entra a parte que o varejo brasileiro precisa entender e quase nunca entende. O selo de compra de uma casa americana sobre um ativo chinês não é análise econômica no sentido clássico, daquele estudo paciente de margens, fluxo de caixa e vantagem competitiva sustentável. É um produto de prateleira fabricado para girar comissão, alimentar fundos de mercado emergente que precisam justificar a exposição à China no prospecto, e manter o fluxo de capital ocidental indo para empresas que financiam direta ou indiretamente o aparato de vigilância de uma ditadura. O dinheiro do aposentado de Curitiba que comprou cota de um ETF de tecnologia global pode estar, neste exato momento, ajudando a desenvolver a próxima geração de censura algorítmica em Xangai. Ele não sabe disso, e ninguém na cadeia tem interesse em contar.
O ponto cego é estrutural. Toda a indústria de research foi treinada para olhar o que se vê, balanço, receita, EBITDA, projeção, e fingir que o que não se vê não existe. O que não se vê é o risco regulatório embutido em cada centavo de lucro de uma empresa que opera em jurisdição onde não há propriedade privada no sentido em que o ocidente entende propriedade. O acionista da NetEase não é dono de nada. É portador de um direito condicional, revogável a qualquer momento, em uma estrutura jurídica chamada VIE que existe justamente porque a lei chinesa proíbe estrangeiro de ser dono de empresa de internet no país. Tudo aquilo é um arranjo que se sustenta enquanto Pequim achar conveniente. No dia em que não achar, vira pó, e o relatório de compra vira papel de embrulhar peixe.
Há ainda a camada cultural, que é a mais ignorada de todas. A China não compete pelas regras do jogo ocidental, porque nunca aceitou essas regras como legítimas. Joga o próprio jogo, com cartas marcadas, juiz comprado e árbitro que muda a regra no meio da partida. Quem entra naquele cassino achando que entende a banca está confundindo capitalismo com aquilo que se vê em Xangai, que é estatismo de mercado com fachada de bolsa. E o ocidente, em vez de blindar seus poupadores, oferece a eles produtos financeiros que canalizam economia doméstica para financiar o adversário estratégico. É uma das maiores transferências silenciosas de riqueza da história, e está embalada em PDF com gráfico bonito e selo de recomendação positiva.
Fica a pergunta que o investidor sério precisa fazer toda vez que ler uma manchete dessas. Quem ganha a comissão da operação, quem paga a conta do risco oculto, e quem dorme tranquilo sabendo que o sistema continuará alimentando o moedor enquanto houver carne para moer. Resposta curta: ganha o banco de investimento, paga o cotista distraído, e dorme tranquilo o estrategista de Pequim, que entendeu antes de todo mundo que o capitalismo ocidental, quando perde o senso de pertencimento à própria civilização, vira ferramenta nas mãos de quem quer destruí-lo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.