A notícia chegou embrulhada no jargão habitual de Wall Street, daqueles que servem para anestesiar o leitor antes da injeção. A Benchmark reduziu o preço-alvo da Domino's Pizza diante de vendas mais fracas que o esperado, e a manada repete o ritual de sempre, ajusta múltiplos, recalibra projeções, fala em ventos contrários macroeconômicos como se o vento tivesse vontade própria. Não tem. O vento tem nome, sobrenome e endereço, e sopra de Washington há pelo menos uma década, mais precisamente do prédio onde uma instituição supostamente independente decide quanto vale o dinheiro no seu bolso enquanto você dorme.

Olha, é preciso uma dose impressionante de ingenuidade ou de cinismo profissional para tratar a queda nas vendas de pizza barata como mistério a ser decifrado. A pizza barata deixou de ser barata. Uma combinação que custava dezoito dólares em 2019 hoje passa dos trinta, e o salário do entregador, do caixa, do sujeito que monta a massa, esse não acompanhou a curva. Quando a unidade básica do consumo popular americano, aquele jantar de sexta com a família, vira luxo discreto, alguma coisa profundamente errada aconteceu na fundação do edifício, não na cobertura.

E aqui é onde a análise convencional simplesmente se recusa a olhar. Os relatórios de banco discutem mix de produtos, estratégia de promoções, concorrência com Pizza Hut e Little Caesars, qualquer coisa que mantenha a conversa no andar de cima, longe do porão onde mora o problema verdadeiro. Imprimiu-se trilhões durante a pandemia, despejou-se essa enxurrada de papel na economia, e agora se finge que a inflação acumulada que comeu o salário real do americano médio é fenômeno meteorológico, fato da natureza, algo que aconteceu com o povo, não algo que foi feito ao povo. A diferença é tudo.

Quer dizer, siga o dinheiro e a história fica nítida. Quem ganhou com a expansão monetária dos últimos anos foi o detentor de ativos, a casa que valorizou, a ação que subiu, o portfólio gordo. Quem pagou a conta foi o sujeito que ganha por hora, que não tem como se proteger da erosão da moeda, que vê o preço da pizza, do leite, do aluguel subir enquanto seu contracheque caminha de muletas. A Domino's não está perdendo cliente, está perdendo cliente que existe, porque o cliente foi descapitalizado por uma engenharia que não aparece em manchete porque a manchete mora no mesmo prédio do engenheiro.

Tem ainda o detalhe delicioso da reação do mercado, que descobre o óbvio com seis meses de atraso e cobra por isso. Analistas que passaram dois anos repetindo que o consumidor americano estava resiliente, robusto, surpreendentemente forte, agora descobrem, ó espanto, que ele estava era no cheque especial, sustentando o consumo no cartão até o cartão estourar. Pizza é o canário na mina, é o termômetro mais honesto do orçamento popular, e quando o canário tomba, não adianta culpar o canário. A mina está envenenada de juro artificial, gasto público desenfreado e uma fé infantil de que se pode criar prosperidade no botão da impressora.

Me diz uma coisa, qual o próximo capítulo desse roteiro previsível. Vão pedir estímulo, vão sugerir corte de juros, vão chamar de aterrissagem suave aquilo que já é queda livre disfarçada por cinto de segurança contábil. E quando a próxima rodada de liquidez chegar, os mesmos analistas vão celebrar o repique das ações da Domino's como se a pizza tivesse ficado melhor, quando a única coisa que mudou foi o tamanho da mentira. O preço da pizza é o boletim de ocorrência da moeda assassinada, e nenhum corte de preço-alvo vai ressuscitar o defunto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.