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Em 10 de abril de 2026, a primeira grande operação financeira da era Greg Abel na Berkshire Hathaway foi precisamente o que Buffett faria: emitir 272,3 bilhões de ienes em títulos divididos em seis tranches, vencimentos de 3 a 30 anos, pagando entre 2,077% e 4,037% de juros ao ano, e usar o dinheiro para comprar ativos japoneses que rendem consideravelmente mais. A imprensa financeira chamou de "estratégia de longo prazo". O nome mais preciso é arbitragem de política monetária. Ou, para quem prefere a linguagem direta: pegar dinheiro barato de um banco central que se recusa a precificar o risco corretamente, e aplicar onde o mundo real ainda precifica.

O Banco do Japão mantém sua taxa em 0,75% enquanto o iene se deprecia 11% em doze meses e encosta em 159 ienes por dólar. Isso não é política monetária, é um experimento em câmara fechada sobre o que acontece quando uma autoridade central decide, por decreto, que o tempo vale menos do que o mercado diz que vale. Toda vez que alguém emite dívida em iene e compra ativos denominados em moeda mais sólida ou com retornos superiores, está extraindo riqueza do poupador japonês médio, que recebe zero de juros em sua caderneta enquanto assiste o poder de compra da moeda murchar. O poupador não votou nisso. Ninguém perguntou a ele. O Banco do Japão decidiu, e o poupador paga.

A Berkshire faz isso desde 2019, quando lançou a maior emissão em ienes da sua história, 430 bilhões, e começou a acumular participações nas cinco grandes tradings japonesas, as sogo shosha, Mitsubishi, Mitsui, Sumitomo, Marubeni, Itochu, que combinam commodities, logística, energia e praticamente tudo que move uma economia industrial. Hoje essas posições valem mais de US$ 30 bilhões. A lógica é impecável do ponto de vista do investidor: tomo dinheiro emprestado a 2%, compro ativos que rendem 8%, e o diferencial financia minha expansão no Japão. Agora adicionaram a Tokio Marine Holdings ao portfólio, com um cheque de 300 bilhões de ienes. O mecanismo continua o mesmo. O beneficiário indireto continua sendo o mesmo banco central que distorce o preço.

Não há nada ilegal aqui, e seria absurdo culpar a Berkshire por aproveitar uma oportunidade que o próprio governo japonês criou e sustenta há décadas. O ponto não é a moralidade do investidor, é a mecânica do sistema. Quando uma autoridade central decide artificialmente o custo do crédito, não elimina a sinalização de preços, apenas a transfere: quem tem acesso ao crédito barato se beneficia, quem não tem paga, via inflação ou via rendimentos reais negativos, pelo privilégio dos que têm. A Berkshire tem. O aposentado japonês não tem. A equação é assim simples e assim perversa.

Olha, há algo quase irônico em celebrar a "genialidade" de uma operação cujo fundamento é a distorção monetária estatal. O mesmo ambiente intelectual que aplaude Buffett como o grande campeão do capitalismo de longo prazo raramente menciona que boa parte de seus retornos recentes no Japão dependem de um banco central que, num mercado genuinamente livre, jamais manteria juros reais negativos por décadas a fio. Não é crítica ao investidor, é diagnóstico do sistema. O que a Berkshire faz no Japão é o que qualquer alocador racional faria: seguir o subsídio até onde ele vai. O problema não é quem bebe no balcão aberto. O problema é quem paga a conta sem saber que está pagando.

A emissão de abril de 2026 marca uma continuidade, não uma ruptura. Greg Abel não inovou, ele herdou uma tese e a executou com competência. O iene continua fraco, o Banco do Japão continua hesitante em subir juros com força suficiente para corrigir décadas de repressão financeira, e os ativos japoneses continuam gerando retorno acima do custo da dívida em ienes. Enquanto esse diferencial existir, a torneira ficará aberta. E quando o Banco do Japão finalmente precisar normalizar, o ajuste será pago, como sempre, por quem não leu o prospecto.

Com informações do Valor Econômico, Bloomberg e Nikkei Asia. A análise e opinião são do O Algoz.