Greg Abel não perdeu tempo e foi direto ao elefante na sala da reunião anual da Berkshire Hathaway. Era o que se esperava de quem assume o lugar do oráculo de Omaha sob os holofotes de uma plateia que, em sua maioria, comprou ações menos por análise fundamentalista e mais por devoção quase religiosa ao homem que está saindo. O problema é que devoção não compõe portfólio, e o cenário que Abel encontra não é o mesmo que permitiu a Buffett construir a lenda durante seis décadas de capitalismo americano relativamente funcional.
Olha, a Berkshire está sentada sobre uma montanha de caixa que beira os trezentos bilhões de dólares, e isso diz mais sobre o estado do mercado do que qualquer relatório de Wall Street vai admitir em voz alta. Quando o maior alocador de capital do planeta prefere ficar líquido a comprar empresas, está mandando um recado que os analistas de banco fingem não escutar para não assustar o cliente. Os preços dos ativos estão distorcidos por uma década e meia de juros artificialmente baixos, recompras de ações financiadas por dívida barata e uma expansão monetária que transformou a bolsa americana num cassino onde a casa imprime as fichas. Comprar caro é fácil; o difícil é encontrar valor real quando o sinal de preço foi sequestrado pela autoridade monetária.
Quer dizer, o desafio de Abel não é técnico, é estrutural. Buffett construiu sua fortuna comprando empresas com vantagens competitivas duráveis a preços razoáveis, num período em que ainda existia algo parecido com descoberta de preços no mercado. Abel assume num momento em que cada movimento de basis point do banco central reorganiza trilhões de dólares de capital, em que empresas zumbis sobrevivem porque a taxa de juros real foi mantida negativa por tempo demais, e em que o próprio dólar, lastro de toda a operação, está sendo questionado por metade do mundo emergente. Não é falta de talento do sucessor; é o terreno que está minado.
Me diz uma coisa, alguém realmente acredita que o modelo Berkshire, comprar negócios reais, segurar para sempre, evitar alavancagem agressiva, vai prosperar num ambiente onde o governo americano roda déficits de seis por cento do PIB em pleno emprego e onde o Tesouro precisa rolar trilhões em dívida a taxas que pressionam o orçamento federal? A vantagem do velho era ter caixa quando ninguém tinha, comprar quando todos vendiam, e contar com a estabilidade institucional de um país que respeitava contratos. Dois desses três pilares estão tremendo, e o terceiro depende de uma classe política que demonstra todos os dias não entender, ou não querer entender, o que sustenta a confiança no dólar.
Siga o dinheiro e a história fica mais interessante. A Berkshire é, em larga medida, uma aposta no funcionamento normal da economia americana, seguros, ferrovias, energia, varejo, consumo. Quando o consumidor está afogado em dívida no cartão a vinte por cento ao ano, quando a classe média descobre que sua casa subiu de preço mas seu poder de compra evaporou, quando empresas americanas terceirizam o pensamento de longo prazo para o próximo trimestre porque o CEO precisa entregar antes que o conselho o demita, esses negócios ficam mais frágeis do que parecem nos relatórios. Abel pode ser competente, e provavelmente é, mas competência num barco furado serve apenas para adiar o naufrágio com elegância.
A reunião de Omaha sempre teve algo de teatro de despedida, e este ano mais do que nunca. O ritual de perguntas, as anedotas, a Coca-Cola no púlpito, tudo aquilo é a celebração de uma era que termina junto com o homem que a personificou. O que vem depois não é apenas a sucessão de um executivo; é o teste de se o capitalismo americano ainda consegue produzir os Buffetts da próxima geração ou se transformamos a economia num jogo onde o vencedor é quem tem o canal mais curto até o banco central. A resposta não está no balanço da Berkshire, está na coragem de quem governa o dinheiro de admitir que a festa acabou. Não admitirão, claro. Vão imprimir mais.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.