A Bernstein soltou sua lista de ações chinesas favoritas em setores-chave, e o mercado correu atrás como gato atrás de laser. Tecnologia, consumo, energia, manufatura avançada, tudo embalado em planilhas elegantes com múltiplos baratos e teses de crescimento. Ninguém parou para perguntar a coisa óbvia, aquela coisa que todo mundo sabe mas finge não saber: quem é o sócio majoritário de cada uma dessas empresas? A resposta está na constituição do país, mas o analista de banco prefere não ler.
Olha, o que se vê é o gráfico subindo, o múltiplo P/L atraente, a participação de mercado dominante. O que não se vê é o telefonema que pode chegar a qualquer momento de Pequim avisando que o setor agora tem novo regulador, nova alíquota, nova diretriz política. Pergunte aos acionistas de Alibaba o que aconteceu quando o fundador resolveu fazer um discurso considerado inadequado. Pergunte ao setor de educação privada que virou pó da noite para o dia porque o Partido decidiu que aquilo gerava desigualdade. Bilhões de capitalização de mercado evaporaram não por força do mercado, mas por força do canhão regulatório.
Quer dizer, a precificação ocidental dessas empresas opera sob uma ficção encantadora, a de que os preços ali refletem oferta, demanda e expectativa racional. Mentira. Refletem o humor de um comitê central que não responde a acionista minoritário, não responde a tribunal independente, não responde a regra escrita. Onde não há propriedade privada garantida, não há cálculo econômico real, há apenas a aparência de mercado mantida enquanto for útil ao projeto político. Quando deixar de ser útil, será desmontada. E o investidor estrangeiro descobrirá, tarde demais, que comprou um título sobre algo que nunca foi exatamente seu.
Me diz uma coisa, qual a diferença prática entre comprar ações de uma empresa cujo controlador final é um regime monopartidário e emprestar dinheiro a um devedor que pode mudar os termos do contrato unilateralmente quando bem entender? Nenhuma. É o mesmo risco vestido de ETF. As casas de análise sabem disso, mas o incentivo profissional é produzir relatório, vender tese, girar comissão. Ninguém ganha bônus avisando que o cliente deveria ficar de fora de um mercado inteiro. Siga o dinheiro: o relatório existe porque vende, não porque protege.
Há ainda o lado geopolítico que ninguém quer encarar. Capital ocidental financiando os campeões nacionais de um regime que se prepara explicitamente para confrontar o ocidente em Taiwan, no mar do sul, na guerra dos chips, na corrida das terras raras. O americano compra papel da empresa estatal chinesa para que ela financie o exército que aponta míssil para a base americana. O investidor europeu faz o mesmo com a indústria que substituiu o emprego de seu próprio vizinho. É um suicídio em câmera lenta vendido como diversificação de portfólio.
Existe oportunidade real na China? Em pontos específicos, sim, para quem tem estômago, prazo curto e ilusões zero. Mas tratar aquilo como mercado normal, com lista de favoritas como se fosse S&P 500, é confundir cassino com bolsa, é confundir feudo com república, é confundir concessão revogável com propriedade. Quem entende a diferença sobrevive. Quem não entende vira estatística no próximo relatório de impairment.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.