A casa de análise Bernstein subiu o preço-alvo da DraftKings e o mercado reagiu como quem recebe boa-nova evangélica. Crescimento previsto, margens em expansão, base de usuários se multiplicando, projeções animadoras para os próximos trimestres. Tudo muito limpo na planilha, tudo muito asséptico no relatório, tudo muito profissional na conferência com investidores. O que ninguém na sala quer dizer em voz alta é que o produto vendido por essa empresa é, no fundo, o mesmo produto que os cassinos da máfia vendiam em Las Vegas nos anos 50, só que agora com aplicativo bonitinho, interface gamificada e endosso de celebridade esportiva.

Vale a pena olhar para o que não aparece no gráfico de receita. Cada dólar que sobe na linha de cima dessa empresa veio do bolso de alguém que apostou e perdeu, e a matemática do negócio depende, estruturalmente, de que a maioria continue perdendo. Não é defeito do modelo, é o modelo. A indústria sabe disso, os reguladores sabem disso, os analistas que sobem preço-alvo sabem disso. O que muda é a maquiagem semântica. Antigamente se chamava jogatina e ficava no fundo de boteco. Agora se chama entretenimento digital, recebe selo de empresa listada em bolsa e o sujeito que escreve o relatório positivo provavelmente acha que está fazendo análise técnica.

Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Os estados americanos legalizaram apostas esportivas em massa nos últimos anos porque descobriram uma mina de impostos com argumento moral conveniente, já que se você não autorizar, vai para o mercado paralelo. É o mesmo raciocínio cínico que sustentou a expansão das loterias estatais por décadas, aquela política pública que cobra imposto regressivo de quem tem menos e ainda chama isso de financiamento da educação. Empresa privada captura o consumidor, governo captura a empresa via tributação, lobby da indústria captura o legislador via campanha. Todo mundo ganha, menos o sujeito do interior que viu o time perder e o salário ir junto.

A previsão da Bernstein, em si, provavelmente está correta no horizontal técnico. Vai crescer mesmo. Vai entregar trimestre. Vai bater estimativa. O ponto é entender por que vai crescer. Cresce porque uma população empobrecida, ansiosa e desesperada por sair do lugar enxerga na aposta uma saída improvável que o cérebro insiste em apresentar como possível. Cresce porque o algoritmo foi calibrado por psicólogos comportamentais para maximizar engajamento, que é o eufemismo corporativo para dependência. Cresce porque o esporte profissional, antes templo da disputa, virou cenário publicitário de plataforma de aposta. Em algum momento esse circuito se fecha e o jogo passa a girar em torno da aposta, não a aposta em torno do jogo.

O que se vê é o relatório otimista, o gráfico subindo, o investidor satisfeito, a manchete celebrando o crescimento. O que não se vê são os divórcios silenciosos, as dívidas escondidas no cartão, os adolescentes descobrindo o vício antes da carteira de motorista, as famílias que descobrem o problema quando a fatura já não cabe no salário. Esse custo não aparece em demonstrativo trimestral, não vira linha em earnings call, não conta para o preço-alvo. Mas existe, está se acumulando, e em algum momento alguém vai escrever um livro sobre como uma sociedade inteira terceirizou seu juízo moral para a planilha do analista.

Há uma diferença abissal entre liberdade de o adulto fazer o que quiser com o próprio dinheiro, que é princípio inegociável, e uma indústria bilionária engenheirando incentivos psicológicos para extrair o máximo possível desse adulto enquanto governos fingem que regulam o que na verdade patrocinam. A primeira coisa é direito. A segunda é predação institucionalizada vestida de inovação. Quando a próxima crise dessas empresas chegar, e ela vai chegar porque o ciclo se repete, ninguém vai dizer que sabia. Mas o relatório de hoje está aí, e o nome do analista também.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.