A cena é conhecida. Uma casa de análise reitera recomendação, encaixa a sigla mágica de inteligência artificial no relatório e, como num passe de mágica, os "resultados acima do esperado" aparecem para confirmar a tese. O detalhe que ninguém comenta é que as expectativas foram revisadas para baixo nas semanas anteriores, justamente para que o trimestre pudesse "surpreender". É o velho truque do arqueiro que atira primeiro na parede e depois desenha o alvo em volta da flecha.
Olha, quando uma empresa de pagamentos passa a ser vendida como "play de IA", o que se está dizendo, no fundo, é que o negócio principal já não anima ninguém. O Cash App, o Square, o ecossistema que justificava o múltiplo de antes, tudo isso virou pano de fundo para a nova narrativa. E narrativa, no mercado de capitais, é o que se vende quando os fundamentos não bastam. Inteligência artificial virou o equivalente financeiro do santo milagreiro de procissão: serve para qualquer dor, cura qualquer balanço, eleva qualquer cotação. Pena que santo de banco também cobra dízimo.
Quer dizer, vamos seguir o dinheiro, que é o exercício que ninguém quer fazer. Quem ganha com a recomendação reiterada? A casa de análise, que mantém relação institucional com bancos de investimento que carregam posição. O fundo que precisa justificar para o cotista por que ainda segura papel comprado a preço maior. O executivo da empresa, cuja remuneração variável depende da cotação. E o investidor de varejo, esse paga o ingresso, segura a vela e, quando o ciclo vira, descobre que o "potencial de IA" era potencial mesmo, futuro, condicional, hipotético, sujeito a revisão sem aviso prévio.
Me diz uma coisa, alguém ainda lembra que essa empresa, na origem, era uma maquininha de cartão? Que o salto seguinte foi virar carteira digital? E que agora, depois que a tese da fintech enjoou no paladar dos gestores, precisa se reinventar a cada seis meses para continuar relevante? Não há nada de errado em uma empresa evoluir. Há algo profundamente errado em uma empresa que precisa de nova fantasia trimestralmente para manter o múltiplo. Isso não é crescimento, é cosmética. E cosmética, no balanço, custa caro: aparece em despesa com pesquisa inflada, em aquisições duvidosas, em parcerias que somem do release seguinte.
O problema mais profundo, contudo, não está na Block. Está no ambiente que torna esse tipo de espetáculo possível e, pior, lucrativo. Décadas de juro artificialmente comprimido criaram uma geração inteira de investidores que confunde liquidez fácil com qualidade de ativo. Quando o dinheiro custa pouco, qualquer promessa vira ativo precificável; quando o dinheiro volta a custar, descobre-se quem estava nadando pelado. A IA é apenas o último figurino dessa festa, como antes foi a internet das coisas, o metaverso, o blockchain corporativo, a economia compartilhada. Sempre a próxima coisa, sempre a salvação iminente, sempre o lucro logo ali.
Não estou dizendo que a empresa vai quebrar amanhã, nem que a tecnologia é fraude. Estou dizendo que entre o fato concreto, uma empresa de pagamentos com margens apertadas operando num setor brutalmente competitivo, e a narrativa vendida, uma plataforma de IA com potencial transformador, existe um abismo que o relatório da Bernstein atravessa com a leveza de quem cobra por hora. E o leitor que não entende a diferença entre análise e marketing patrocinado vai descobrir, da forma cara, que recomendação reiterada não é o mesmo que retorno garantido. Aliás, nunca foi.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.