A BHP, maior mineradora do planeta, assinou contratos com a Canadian Pacific Kansas City e a Canadian National Railway para transportar o potássio que vai sair da mina Jansen, em Saskatchewan, rumo aos portos de exportação. É um daqueles arranjos que passam batidos no noticiário porque não tem briga de presidente, não tem CPI, não tem ministro chorando em rede nacional. Tem só duas empresas privadas combinando como vão tirar fertilizante do meio do nada canadense e colocar no porão de navios que vão alimentar a próxima safra brasileira, indiana, indonésia. O mundo come graças a esse tipo de arranjo silencioso, e quase ninguém percebe.
Vale lembrar que Jansen não é uma minazinha. Falamos do maior projeto de potássio do mundo, com investimento somado passando dos catorze bilhões de dólares, projetado para entregar algo perto de oito milhões de toneladas anuais na primeira fase e o dobro na segunda. Isso é a fatia do mercado global que vai ser redesenhada por gente que arriscou capital próprio, calculou risco geológico, negociou royalty com província, fechou frete ferroviário e amarrou cliente final, tudo isso sem que nenhum burocrata em Brasília, Ottawa ou Genebra precisasse autorizar a cor do vagão. Quem decide o que produzir, quanto produzir e por qual rota escoar são os que botam o dinheiro na mesa e respondem pelo prejuízo se errarem.
E agora vem a parte que dói no fígado de quem ainda acredita em soberania nacional via Esplanada. O Brasil, maior comprador de potássio do mundo, importa em torno de noventa e cinco por cento do que consome. Décadas de discurso sobre o "potássio brasileiro de Sergipe", projetos enrolados em licença ambiental, estatal tropeçando em estudo de viabilidade, ministério das Minas anunciando salvação a cada novo governo, e o resultado é que o agronegócio que sustenta a balança comercial depende do canadense que soube combinar com a ferrovia certa. Enquanto o canadense escava, o brasileiro forma comitê interministerial. Enquanto o canadense fecha frete, o brasileiro discute marco regulatório. O que se vê é o anúncio bombástico de soberania mineral; o que não se vê é o produtor de soja em Mato Grosso pagando a conta do parasitismo regulatório com cada saca exportada.
Repare também na escolha do modal. Ferrovia privada, concessionada de verdade, com tarifa negociada empresa a empresa, sem leilão político, sem TCU questionando preço de vagão, sem ANTT inventando regrinha nova a cada semestre. A CPKC e a CN são gigantes que nasceram, quebraram, foram reorganizadas, fundidas, compradas e vendidas conforme o mercado mandou, e por isso entregam logística confiável. No Brasil, os trilhos viraram museu a céu aberto porque alguém em algum momento achou que caminhão dava mais voto. A diferença entre um país que escoa potássio em vagão e um país que escoa soja em caminhão velho na BR-163 esburacada não é geográfica, é institucional. É a diferença entre respeitar contrato e tratar contrato como rascunho a ser revisto pela próxima eleição.
Tem ainda a leitura geopolítica que costuma escapar do colunista de banco. O potássio mundial está concentrado em Canadá, Bielorrússia e Rússia. Com sanções, guerra e capricho diplomático mexendo no fornecimento russo e bielorrusso, cada tonelada nova que sai de Saskatchewan é peça de xadrez no tabuleiro alimentar do planeta. A BHP não está fazendo caridade nem ESG de palco; está ocupando vácuo de oferta que vai valer ouro pelos próximos vinte anos. E o Brasil, que poderia estar nessa mesa como produtor relevante, segue como freguês cativo, refém de quem teve coragem de cavar enquanto aqui se cavava processo administrativo.
A moral da história, se é que existe moral em mineração, é simples e antiga. Riqueza não brota de decreto, não nasce de plano plurianual, não desabrocha em mesa de conselho deliberativo. Riqueza nasce de gente disposta a arriscar capital próprio em terreno hostil, com horizonte de retorno de quinze anos, contando que ninguém venha mudar a regra no meio do caminho. Onde essa confiança existe, surge mina, ferrovia, porto, emprego e jantar farto. Onde não existe, sobra discurso, sobra ministério, sobra reunião, e falta comida na prateleira. O Canadá entendeu. Aqui, ainda estamos discutindo se entendemos.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.