Bitcoin a US$ 61 mil, mínima de quatro meses, justamente no momento em que o Irã e Israel transformam o noticiário em manchete de guerra. Quem passou anos vendendo a moeda como "ouro digital", o ativo que protegeria o sujeito comum da insanidade dos bancos centrais e das guerras dos generais, agora precisa explicar por que, quando a guerra finalmente aparece no horizonte, o suposto refúgio derrete enquanto o ouro de verdade, esse pedaço de metal que existe desde os faraós, sobe sereno como quem nunca prometeu nada além de continuar sendo ouro.
O enredo é antigo, só muda a fantasia. Toda vez que uma nova classe de ativo aparece no palco, vem acompanhada de profetas anunciando que desta vez é diferente, que a tecnologia mudou tudo, que as velhas leis econômicas foram revogadas por um white paper. E toda vez, sem exceção, no primeiro tranco sério, o capital especulativo foge para os mesmos lugares onde fugiu nas últimas cinco mil anos. Não é coincidência, é a natureza humana operando sob estresse, e a natureza humana não lê white paper.
Olha, ninguém aqui está dizendo que o bitcoin é fraude ou que a tecnologia é irrelevante. O ponto é outro, e é mais incômodo. A moeda que se vendeu como antídoto contra a impressora dos bancos centrais comporta-se, na prática, como ativo de risco tecnológico, correlacionado com a Nasdaq, dependente da liquidez global que os mesmos bancos centrais controlam. Quer dizer, o remédio depende justamente da doença que prometia curar. Quando o Federal Reserve aperta, o bitcoin cai. Quando aperta mais, cai mais. E quando a geopolítica acende, o investidor não corre para a carteira fria, corre para o dólar e para o ouro, exatamente como o avô dele teria feito em 1956, em 1973 ou em 1990.
Siga o dinheiro, é o que sempre funciona. Quem ganhou com a narrativa de refúgio digital nos últimos anos não foram os pequenos comprados em pico de euforia, foram as corretoras cobrando taxa em cada solavanco, foram os fundos vendendo ETFs com gordas comissões de administração, foram os influenciadores empacotando promessa de liberdade financeira em curso de mil e novecentos reais. O sujeito comum entrou achando que comprava soberania monetária e descobriu, no susto, que comprou volatilidade pura embalada em discurso libertário. A liberdade não estava na moeda, estava no marketing.
Aqui mora a confusão que precisa ser desfeita sem dó. Defender moeda sólida, propriedade privada e fuga do confisco inflacionário não significa abraçar qualquer token que prometa essas coisas no logotipo. O ouro funciona como reserva de valor porque ninguém consegue imprimir mais ouro num fim de semana, porque ele sobreviveu a impérios, pestes e guerras nucleares evitadas por pouco. O bitcoin pode até vir a ocupar algum espaço nesse panteão no longo prazo, mas pretender que ele já chegou lá, depois de quinze anos de existência e múltiplos colapsos de oitenta por cento, é confundir torcida com análise.
A lição que o gráfico de hoje grita, para quem tem ouvido, é que não existe substituto para disciplina monetária genuína, para reserva escassa de verdade, para o tédio produtivo de um sistema financeiro que não dependa da boa vontade de comitês em Washington. Enquanto o mundo seguir financiando guerras com dinheiro de mentira e chamando isso de política monetária, todo "refúgio" que se vende em pregão eletrônico será refém da mesma maré que afoga as bolsas. O bitcoin caiu porque a fantasia caiu junto. O ouro nem se mexeu, porque ouro não promete, ouro apenas é.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.