O Bitcoin se recuperou acima dos US$ 61 mil depois de uma onda de liquidações que evaporou US$ 1,6 bilhão em posições alavancadas no mercado de derivativos cripto. Traduzindo do economês para o português dos mortais, isso significa que uma multidão de espertinhos resolveu apostar com dinheiro emprestado contra um ativo cuja oferta é matematicamente limitada a vinte e um milhões de unidades, e o mercado, com aquela frieza pedagógica que só ele possui, cobrou a fatura em poucas horas. Quem ficou de pé foi quem comprou e segurou, o tal sujeito chato que não entende de gráfico mas entende de aritmética.

Olha, a volatilidade do Bitcoin é tratada pela imprensa econômica como prova de fragilidade, e aqui mora um dos maiores autoengaços do nosso tempo. Volatilidade num ativo de oferta fixa é apenas o ruído humano em torno de um sinal limpo. O real, o dólar e o euro também são voláteis, só que a volatilidade deles é disfarçada porque o governo redefine a régua todo mês via expansão monetária. Quando você imprime quinze por cento de moeda nova em um ano e chama o resultado de estabilidade, você não está medindo a moeda, está medindo a paciência do trouxa que ainda acredita em você.

Quer dizer, vamos seguir o dinheiro, que é onde a coisa fica interessante. Quem foi liquidado nesse banho de sangue de US$ 1,6 bilhão? Em larga medida, fundos alavancados, mesas de operação institucionais e o exército de aspirantes a gênio que descobriu derivativos no TikTok. Ninguém forçou esses senhores a operarem com vinte, cinquenta, cem vezes o capital próprio. Eles escolheram. E quando a aposta vira pó, descobrem que o mercado, esse mecanismo descentralizado e impessoal, não dá colo, não faz resgate setorial, não nomeia interventor. Compare isso com o que acontece quando um banco grande quebra apostando em títulos podres do Tesouro, e você entenderá por que tanta gente poderosa odeia o Bitcoin com ódio teológico.

O ponto que ninguém quer dizer em voz alta é o seguinte. Um ativo que sobrevive a liquidações bilionárias e em vinte e quatro horas volta a subir não está se comportando como bolha, está se comportando como um organismo que aprendeu a digerir choques. Bolhas estouram e somem. Tulipas, ações de empresas pontocom sem receita, NFTs de macaco entediado, tudo isso virou pó e ponto final. O Bitcoin já foi declarado morto quase quinhentas vezes pela imprensa especializada e segue lá, com capitalização superior à de boa parte dos bancos centrais que tentaram enterrá-lo. Em algum momento, a honestidade intelectual exige reconhecer que talvez o problema não esteja no ativo, mas no termômetro de quem o mede.

Enquanto isso, no Brasil dos burocratas com aspirações imperiais, prepara-se mais uma rodada de taxação sobre criptoativos, sob o pretexto de sempre, combater desigualdade, financiar gasto social, garantir isonomia tributária e outras palavras bonitas que escondem o mesmo verbo de sempre, confiscar. O cidadão que economizou em Bitcoin para escapar do confisco silencioso da inflação descobrirá em breve que o confisco explícito do imposto também o aguarda. É a velha lógica do salteador que, ao ver alguém escapando pela janela, corre para fechar a janela em vez de parar de saltear.

A lição dessa correção brutal não é sobre cripto, é sobre o ser humano. O mercado livre é o único professor que não aceita suborno, não distribui medalha de participação e não tem horário comercial. Ele ensina pela dor quem se recusou a aprender pela razão, e ensina de novo na semana seguinte para quem achou que da última vez tinha sido azar. Quem entendeu isso comprou na queda. Quem não entendeu vai à televisão chamar o ativo de golpe. E o Bitcoin, com aquela indiferença olímpica dos sistemas que funcionam, segue produzindo um bloco a cada dez minutos, sem pedir licença, sem pedir desculpa e sem precisar de coletiva de imprensa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.