O bitcoin furou os 80 mil dólares e os ETFs registraram entradas que fariam corar qualquer gestor de fundo tradicional. A Strategy, antiga MicroStrategy, prepara seu balanço como quem prepara um troféu, sentada sobre uma montanha de bitcoins comprados quando o consenso dos doutores em economia ainda chamava o ativo de tulipa digital. Quem riu por último, como sempre, riu melhor, e quem riu não foi o economista de banco que escreve relatório bonito em PDF colorido.

Convém entender o que está acontecendo aqui, porque a manchete esconde mais do que revela. Não existe rali de bitcoin no vácuo. Existe, sim, um sistema monetário global que opera há mais de uma década numa farra de expansão de balanço, juros artificialmente manipulados e dívida pública que cresce em progressão geométrica enquanto a produtividade real cresce em progressão aritmética, quando cresce. O bitcoin não está subindo; o dólar, o euro, o real e companhia estão derretendo, e alguns sujeitos espertos perceberam isso antes dos outros. A diferença entre os dois movimentos é o que separa quem preserva patrimônio de quem segura papel pintado por decreto.

Siga o dinheiro e a história fica clara. Os ETFs spot abriram a porteira para que fundos de pensão, family offices e gestoras institucionais, que antes não podiam tocar no ativo por questões regulatórias e de mandato, agora despejem bilhões num instrumento auditado, custodiado e devidamente engravatado. O Estado, que durante anos tratou o bitcoin como ameaça subversiva, acabou sendo o vendedor involuntário da legitimação ao aprovar o produto. É a velha ironia da regulação: o mesmo aparato que existe para proteger o cidadão do mercado acabou destravando o maior fluxo de capital privado para fora do sistema fiduciário estatal da história moderna. Os burocratas, sem perceber, assinaram o atestado de óbito do próprio monopólio que juravam defender.

O caso da Strategy merece um parágrafo só dele, porque é a parábola perfeita do nosso tempo. Uma empresa de software medíocre transformou seu balanço numa tese monetária, abandonou a pretensão de competir no setor original e virou, na prática, um veículo de exposição alavancada a bitcoin. Os analistas tradicionais ridicularizaram a estratégia em 2020, em 2021, em 2022. Hoje calculam o valor de mercado da empresa coçando a cabeça e tentando entender como uma decisão tão "irracional" produziu retornos que fariam Warren Buffett, com todo respeito, parecer um aplicador de poupança. A racionalidade dos doutos é frequentemente a irracionalidade do real disfarçada de prudência.

O que ninguém quer dizer em alto e bom som é o seguinte: o bitcoin a 80 mil dólares não é uma vitória da especulação, é a derrota silenciosa do experimento monetário iniciado em 1971, quando o último vínculo entre moeda estatal e algo escasso foi rompido por canetada presidencial. Há mais de cinquenta anos vivemos numa economia em que o dinheiro é literalmente fabricado por comitês de pessoas que nunca produziram um parafuso na vida, e a conta dessa farra está chegando na forma de inflação persistente, dívida impagável e fuga ordenada de capital para qualquer ativo que o burocrata não consiga imprimir. Imóvel, ouro, bitcoin, terra, obra de arte. Tudo serve, desde que não dependa da assinatura de um presidente de banco central.

Quem ainda acha que isso é bolha não entendeu o jogo. Bolha é confiar que o sujeito que quebrou a moeda nos últimos cinquenta anos vai, agora, magicamente, virar guardião responsável da poupança alheia. O bitcoin é caro porque o dinheiro virou barato, e enquanto a impressora não for desligada, o que parece teto hoje será chão amanhã. O resto é narrativa para acalmar quem perdeu o trem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.