A notícia chega embrulhada em papel de presente. Blackstone, o maior gestor de ativos alternativos do mundo, e Google, que vive de vender anúncios e finge ser empresa de tecnologia, anunciam uma joint venture de cinco bilhões de dólares para produzir chips dedicados a inteligência artificial. O jornalismo econômico bate palma, o investidor de varejo se anima, o analista de banco repete em coro que estamos diante de uma revolução produtiva. Olha, antes de aplaudir o espetáculo, vale fazer a pergunta que ninguém faz na coletiva de imprensa: de onde sai esse dinheiro, e por que ele aparece justamente agora, justamente neste setor, com essa magnitude obscena?
A resposta é deselegante para quem gosta de narrativa heroica. Cinco bilhões de dólares não brotam do chão. Eles são fabricados, em parte literalmente, pela expansão monetária crônica que vem inflando preços de ativos há mais de uma década. Quando o banco central mantém juros artificialmente baixos por tempo suficiente, o capital começa a procurar abrigo em qualquer narrativa que prometa retorno acima da inflação real, que ninguém mais consegue medir direito. A inteligência artificial virou o destino preferido porque é a única história capaz de justificar múltiplos de avaliação que, em qualquer época sóbria da história econômica, fariam um corretor honesto rir alto. Não é coincidência. É consequência inevitável de uma máquina de imprimir dinheiro que opera sem freio há tanto tempo que esquecemos como o freio funciona.
Quem está dos dois lados do negócio também merece atenção. Blackstone administra perto de um trilhão de dólares, boa parte deles vindo de fundos de pensão americanos, fundos soberanos estrangeiros e seguradoras que jogam o risco para o aposentado lá na ponta. Google, por sua vez, opera dentro de um ecossistema regulatório tão favorável que conseguiu construir um monopólio de busca sob o nariz de três governos antitruste seguidos sem perder uma noite de sono. Quando esses dois entes se sentam à mesma mesa, não estamos diante de competição capitalista no sentido clássico. Estamos diante de um arranjo entre gigantes que dependem do mesmo sistema financeiro inflado, do mesmo regulador domesticado, da mesma narrativa midiática condescendente. Isso tem nome, e o nome não é livre mercado.
O que se vê é fácil. Manchete bonita, empregos prometidos, capacidade industrial em solo americano, redução de dependência de fabricantes asiáticos. O que não se vê é mais interessante. Não se vê o pequeno empresário que não consegue crédito porque o capital foi sugado por essas operações elefantíacas. Não se vê o aposentado cujo fundo de pensão acabou alocado em ativos ilíquidos de longa maturação porque o gestor precisava entregar retorno acima de um benchmark distorcido. Não se vê o consumidor final, que pagará o custo dessa infraestrutura embutido no preço de cada produto digital nos próximos vinte anos, sem nunca ter assinado contrato algum. A conta sempre chega, e ela quase nunca chega para quem deu a ordem.
Existe ainda o detalhe pouco confortável de que toda essa estrutura está sendo erguida em cima de uma tese tecnológica que pode ou não se confirmar. Os modelos de linguagem atuais consomem energia em escala industrial para gerar resultados que, fora de demonstrações controladas, ainda decepcionam mais do que entregam em ambiente produtivo sério. Construir cinco bilhões de dólares em capacidade fabril dedicada a um paradigma que pode estar a três anos da obsolescência é o tipo de aposta que só se faz quando o dinheiro é barato e a consequência do erro é socializada. Se der certo, os acionistas ficam com o bônus. Se der errado, o sistema bancário absorve, o governo socorre, e o contribuinte descobre no ano seguinte que o déficit cresceu sem que ninguém saiba explicar exatamente por quê.
O capitalismo de verdade, aquele que enriqueceu o ocidente entre o século dezoito e meados do vinte, era feito de pequenos comerciantes assumindo riscos próprios, com capital próprio, falindo quando erravam e prosperando quando acertavam. O que está aí hoje, vestido com a roupa do livre mercado, é outra coisa. É concentração protegida, risco socializado, lucro privatizado e narrativa controlada. Chamar isso de empreendedorismo é um insulto à palavra. Quando dois colossos se unem para construir o futuro com dinheiro que não é deles, sob regras que eles ajudaram a escrever, em um mercado onde a competição real foi sufocada pela própria escala que eles ocupam, o que temos não é progresso. É feudalismo financeiro com hashtag de inovação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.