Olha o que aconteceu sem que ninguém na imprensa econômica brasileira tenha tido a coragem de traduzir direito. A Blackstone, gigante de US$ 1,8 trilhão sob gestão, viu uma onda de pedidos de resgate no seu fundo carro-chefe de crédito privado e correu para fazer o que casas em apuros sempre fazem quando o cheiro de pânico começa a vazar pela fresta: convocou os executivos seniores a colocarem capital próprio no fundo. O presidente da empresa apresenta o gesto como prova de "alinhamento de interesses". Me diz uma coisa, desde quando precisa provar alinhamento quando o negócio vai bem? Ninguém nunca viu o dono de padaria correndo para comer o próprio pão na frente do freguês para provar que o pão presta.
O mercado de crédito privado cresceu de coisa nenhuma para quase dois trilhões de dólares em pouco mais de uma década, e cresceu exatamente porque os bancos centrais inundaram o planeta de liquidez quase de graça depois de 2008 e depois da pandemia. Dinheiro barato sempre vai procurar onde render, e quando os títulos públicos pagam mixaria, o investidor empurra o capital para corredores cada vez mais escuros do mercado, atrás de qualquer ponto base a mais de retorno. É aí que entra o crédito privado, esse arranjo opaco onde fundos emprestam diretamente para empresas que não conseguiriam, ou não quereriam, captar no mercado público sob escrutínio. Tudo lindo enquanto a maré subia. O problema é que toda expansão de crédito artificial termina do mesmo jeito desde que o mundo é mundo.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. Os gestores cobram taxas gordas sobre o patrimônio administrado, taxas de performance sobre lucros que muitas vezes são marcados a modelo e não a mercado, e ainda gerenciam a liquidez do veículo com a discricionariedade de quem manda no botão da porta. Quando o investidor pede para sair, descobre que sair não é exatamente o mesmo verbo que ele entendeu na hora de entrar. Existem janelas, existem limites, existem "gates" que travam o fluxo quando a saída fica grande demais. Ou seja, o risco que estava embutido no contrato em letras pequenas só aparece em letras garrafais quando já é tarde. Aquilo que parecia rendimento extra era prêmio de iliquidez disfarçado, e o disfarce só dura enquanto ninguém quer mesmo o dinheiro de volta.
O gesto de pôr os executivos para comprar cotas é puro teatro de confiança, e teatro de confiança é o último recurso de quem perdeu a confiança espontânea. Funciona como aquelas fotos do banqueiro almoçando na agência durante uma corrida bancária no século passado, sorrindo para a foto enquanto o caixa lá dentro suava para encontrar cédulas suficientes. Quando a coisa flui naturalmente, ninguém precisa montar cenário. O sintoma de que algo não vai bem é justamente a necessidade de provar que está tudo bem. Quem entendeu de capitalismo de verdade sabe distinguir um sinal sincero, que custa caro a quem o emite, de um sinal performático, que é só relações públicas em traje de gala.
E vale lembrar que o crédito privado é hoje o novo subterrâneo onde se acumulam riscos que o sistema bancário regulado foi proibido de carregar depois da última crise. O regulador empurrou o problema para fora do balanço dos bancões, e o mercado, sempre criativo, recriou exatamente a mesma função num invólucro diferente, com menos transparência e zero rede de proteção sistêmica. É a velha história, o burocrata acha que resolveu um problema quando apenas o mudou de endereço, e em geral mudou para um endereço pior, onde ninguém está olhando. Quando vier a próxima crise, e ela vem, ninguém poderá dizer que não havia avisos. Os avisos estão piscando, em letras vermelhas, na primeira página da Bloomberg de hoje.
A lição que o investidor brasileiro precisa tirar disso é simples e não cabe num post de Instagram financeiro. Rendimento acima da média carrega risco acima da média, mesmo quando o vendedor jura que descobriu uma alquimia inédita. Liquidez vale dinheiro, e quem abre mão de liquidez está cobrando, ou devia estar cobrando, um prêmio compatível com o aperto que vai sentir no dia em que precisar do recurso de volta. E desconfie sempre, sempre, do executivo que precisa anunciar publicamente que está alinhado com você. Gente realmente alinhada não precisa de comunicado à imprensa para provar.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.