Vinte e seis bilhões de dólares em ativos hoteleiros comprados em outubro de 2007, exatamente quando o sistema bancário americano começava a tossir sangue. Qualquer analista de risco minimamente honesto teria classificado a operação como suicídio corporativo. E, no entanto, o executivo da Blackstone hoje sobe ao palco e conta a história como se fosse um épico de coragem, intuição e liderança. Quer dizer, é uma narrativa bonita, encadernada em couro, mas faltam algumas páginas. As páginas em que o Federal Reserve corta juros a zero, compra trilhões em ativos podres e estende um tapete vermelho de liquidez para que os grandes gestores possam respirar enquanto o cidadão comum perde a casa, o emprego e a poupança.

O que se vê é o lucro de quatorze bilhões celebrado em entrevista. O que não se vê é o custo dessa festa, distribuído silenciosamente por uma década de poder de compra corroído, aposentadorias evaporadas e gerações inteiras de jovens americanos que nunca mais conseguiram comprar um imóvel porque o preço dos ativos foi inflado artificialmente para salvar quem tinha pago caro demais por eles. A operação da Blackstone não foi um exercício de visão de longo prazo, foi uma aposta calculada de que o Estado não permitiria a falência dos grandes. E o Estado, fiel ao seu papel histórico de seguradora gratuita do andar de cima, não permitiu.

Olha, existe uma palavra antiga para isso, e ela não é capitalismo. Capitalismo é quem arrisca, ganha; quem erra, quebra. O arranjo que permitiu esse lucro de quatorze bilhões é outra coisa, é a aliança entre o balcão financeiro e o balcão monetário, em que o lucro é privatizado com aplausos da imprensa econômica e o prejuízo é socializado em silêncio, parcelado em centavos de inflação no preço do pão, do aluguel, do plano de saúde. Quem entende minimamente como funciona a expansão artificial de crédito sabe que o boom imobiliário de 2003 a 2007 não foi um fenômeno espontâneo do mercado, foi uma fabricação direta de uma autoridade monetária que manteve juros artificialmente baixos por anos a fio.

E aqui está a contradição que ninguém na Bloomberg teve coragem de levantar. Se o gestor é tão brilhante a ponto de antecipar a recuperação do setor hoteleiro, por que precisou que o banco central injetasse liquidez sem precedentes para que sua tese funcionasse? A resposta honesta é que ele não previu nada, apostou que o resgate viria. E veio. Veio porque o tamanho da posição garantia o socorro, porque ninguém em Washington tinha estômago para deixar o sistema corrigir os próprios excessos. A virtude do gestor não foi a coragem, foi a leitura correta do incentivo perverso embutido no sistema. Ele sabia que era grande demais para falir, e agiu de acordo.

A lição que se quer extrair dessa história, a de que basta manter a calma, confiar nos negócios certos e construir confiança, é uma fábula para auditórios corporativos. A lição real, a que importa, é que a moeda fiduciária administrada por comitês de doutores em economia transformou o mercado de capitais americano em uma roleta viciada, em que os jogadores certos sabem que a casa nunca os deixará perder de vez. O sujeito comum, que paga o imposto inflacionário todo dia ao abrir a carteira, é o financiador involuntário desses lucros memoráveis que depois viram episódios de podcast.

Me diz uma coisa, qual é a coragem de apostar bilhões quando você sabe que existe uma rede de proteção tecida com o dinheiro de quem nunca foi consultado? A coragem de verdade é a do pequeno empresário que abre uma padaria sabendo que ninguém vai resgatá-lo se a farinha subir trinta por cento porque o governo decidiu imprimir mais um trilhão. Essa é a coragem que sustenta uma economia real. O resto é teatro de Wall Street, com figurino caro e plateia treinada para aplaudir no momento certo.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.