O processo que dominou manchetes durante meses, que mobilizou batalhões de advogados, que contaminou redes sociais com narrativas e contranarrativas, que destruiu reputações em tempo real e que prometia uma sentença didática sobre assédio, retaliação e a indústria do cinema, terminou como quase tudo termina em Hollywood: num acordo cujos termos ninguém vai conhecer, assinado longe das câmeras, com cláusulas de confidencialidade que valem mais que qualquer veredito. A peça acabou antes do terceiro ato, e o espectador descobre que pagou ingresso para um teatro sem desfecho.

Repare no mecanismo. Duas partes com bolsos profundos travam guerra pública, queimam meses do Judiciário americano, ocupam espaço editorial que poderia estar discutindo coisas sérias, e quando a conta dos honorários começa a doer mais que o orgulho ferido, sentam, negociam um cheque, e desaparecem. O sistema judicial, que deveria existir para revelar a verdade dos fatos e estabelecer precedente, vira instrumento de barganha entre celebridades. Quem pode pagar, transaciona. Quem não pode, apanha do processo até desistir. A justiça, na prática, é um serviço premium.

E há aqui um detalhe que poucos comentaristas vão sublinhar: o acordo privado é exatamente o tipo de solução que o mercado livre produziria, e isso é simultaneamente sua virtude e sua perversão neste caso. Virtude porque resolver disputas por contrato voluntário é sempre superior a impor sentença pela força do Estado. Perversão porque toda a guerra anterior, com seus vazamentos coordenados, suas campanhas de relações públicas disfarçadas de jornalismo, suas turbas digitais teleguiadas, foi conduzida não para descobrir o que aconteceu, mas para inflar o preço da rendição da outra parte. O processo virou alavanca de negociação, não busca de verdade.

O que se vê é o anúncio do acordo, alívio no mercado, ações da produtora respirando, agentes telefonando para fechar próximos contratos. O que não se vê é a fila de mulheres anônimas em conjuntos de produção menores que continuarão sem voz porque não têm dez milhões para contratar o escritório certo, sem rede para construir narrativa pública, sem o luxo de transformar uma alegação em campanha global. A causa que ela diz defender exigia sentença pública, jurisprudência, documentos abertos. Ganhou cheque. Trocou bandeira por boleto, e o resto das mulheres da indústria que se virem.

Há também o capítulo das reputações. Durante meses, milhões de pessoas formaram opinião firme sobre quem era vítima e quem era vilão, baseadas em recortes vazados estrategicamente, em mensagens descontextualizadas, em análises de linguagem corporal feitas por gente que nunca pôs os pés num set. O acordo não absolve ninguém nem condena ninguém, e ainda assim cada lado vai sair declarando vitória moral. A turba que linchou um lado vai fingir amnésia. A turba que linchou o outro vai fazer o mesmo. E todos voltarão amanhã para a próxima fogueira pública, com a mesma certeza inabalável e a mesma ausência absoluta de informação.

A lição, se alguém quiser anotar, é antiga e desconfortável. Espetáculo não é justiça. Indignação não é prova. E quando a indústria do entretenimento, a indústria jurídica e a indústria das redes sociais se aliam para transformar conflito privado em produto de consumo, o que sobra no final é faturamento dividido entre escritórios de advocacia, agências de comunicação e plataformas digitais, enquanto o público sai do cinema sem entender o filme que pagou para assistir. O tribunal de verdade fica vazio. O tribunal das paixões nunca dorme. E a conta, como sempre, é paga por quem assiste de pé na arquibancada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.