Toda vez que o Estreito de Hormuz aparece nos noticiários, o barril sobe antes que qualquer tiro seja disparado. Não é coincidência. É o mercado precificando uma ameaça que existe há décadas como elemento permanente da arquitetura financeira global, um tipo de imposto invisível cobrado sobre cada tanque de gasolina de cada trabalhador do mundo. O que aconteceu na última semana não foi uma novidade geopolítica. Foi o mesmo roteiro de sempre, com novo elenco na Casa Branca e mesmos beneficiários nas salas de reunião de Houston, Riad e Wall Street.

Trump ameaçou atacar embarcações iranianas no Estreito. O petróleo foi a $100. Os mercados "tremeram". A imprensa financeira fez o trabalho que sempre faz: tratou o sintoma como se fosse a doença e a reação dos preços como se fosse um fenômeno natural, como tempestade ou terremoto, algo que simplesmente acontece sem autor e sem beneficiário. Mas o preço não subiu sozinho. O preço subiu porque alguém com posição comprada em contratos futuros de petróleo precisava que ele subisse, e uma declaração presidencial belicosa num domingo vale mais do que qualquer relatório da OPEP.

Siga o dinheiro com calma. Quando o barril cruza $100, as companhias petrolíferas registram lucros extraordinários que não derivam de nenhuma eficiência produtiva, de nenhuma inovação tecnológica, de nenhum risco empresarial genuíno. Derivam de uma tensão geopolítica que pode ser ligada e desligada como torneira por qualquer governo com acesso a um microfone. O contribuinte americano financia o aparato militar que patrulha o Golfo Pérsico, o consumidor brasileiro paga o barril inflado, e os acionistas das grandes petrolíferas embolsam a diferença. Não é teoria da conspiração. É aritmética.

O Goldman Sachs abre a temporada de resultados exatamente quando o petróleo rompe os três dígitos. Não existe coincidência nessa altitude. Os grandes bancos de investimento têm mesas de commodities que precisam de volatilidade para existir. Volatilidade real, volatilidade fabricada, tanto faz. O que importa é o spread, o movimento, a posição. Um presidente que tuíta ameaças nucleares contra o Irã às onze da noite é, para os mercados, uma espécie de serviço público: gera o caos necessário para que o gênio da arbitragem financeira possa trabalhar. O caos do mundo é o produto deles.

Existe aqui uma ironia que a mídia corporativa nunca enfrenta: a mesma ordem liberal internacional que diz defender o livre comércio e a paz global é construída sobre o monopólio militar de um único Estado que decide, unilateralmente, quem pode e quem não pode navegar em águas internacionais. O Estreito de Hormuz é a prova viva de que não existe livre mercado de energia. Existe um mercado gerenciado por ameaças, sanções, frotas navais e declarações de presidentes que acordam irritados. Chamar isso de "mercado livre" é o mesmo que chamar de "jogo justo" uma partida onde um dos jogadores decide as regras na hora.

O consumidor no fim da cadeia, seja ele brasileiro pagando R$7 no litro ou europeu pagando dois euros no posto, não tem voto nem voz nesse arranjo. Paga a conta da tensão geopolítica como paga o imposto sobre o imposto sobre o imposto: compulsoriamente, silenciosamente, sem recibo. O que se vê é o preço do petróleo subindo. O que não se vê é a transferência de riqueza que esse sobe-desce orquestrado realiza, com precisão cirúrgica, sempre na direção certa: do bolso de quem trabalha para o balanço de quem especula. A guerra não precisa acontecer para ser rentável. Basta a ameaça. E a ameaça, essa, nunca acaba.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.