O Blue Ridge Bankshares, aquele banco regional da Virgínia que vem penando há trimestres com prejuízo, diluição acionária e acordos formais com reguladores federais, resolveu que o problema urgente da casa não era o balanço nem a confiança do depositante. Era o contracheque do CEO interino. Harry Golliday, o sujeito contratado como tapa-buraco, acaba de receber um upgrade na remuneração, e o conselho anuncia isso com a cara lavada, como se estivesse distribuindo medalhas num batalhão que acabou de perder a guerra.
Repare no arranjo, porque ele é clássico. Quando a empresa cresce e lucra, o CEO é remunerado porque "gerou valor ao acionista". Quando a empresa encolhe e afunda, o CEO é remunerado porque "está enfrentando um momento desafiador e precisamos retê-lo". Lucro ou prejuízo, a variável dependente é sempre a mesma: o bolso do executivo sobe. O acionista minoritário, esse personagem decorativo das assembleias, paga a conta nos dois cenários e ainda aplaude de pé quando o release de governança chega bem diagramado.
Há algo de profundamente pedagógico nessa cena, e o pedagógico aqui não é elogio. Um banco que opera sob escrutínio regulatório reforçado, que já emitiu ações a preço de banana para recompor capital e que viu investidores institucionais entrarem na base de forma emergencial, deveria, em tese, estar em modo austeridade monástica. Cortando, apertando, alinhando incentivos ao sofrimento do acionista. Faz exatamente o oposto. Aumenta o pacote de quem está lá provisoriamente, sem sequer ter o encargo de planejar os próximos dez anos. É como contratar taxista por corrida e pagar plano de carreira.
Siga o dinheiro, porque é aí que a fábula da meritocracia corporativa desaba. O conselho que aprova o aumento é formado por pessoas cuja própria remuneração, prestígio e reputação dependem de manterem boas relações com o executivo-chefe. A cláusula de retenção é a forma elegante de dizer que o mercado executivo virou um cartel de amigos, onde o risco é socializado entre os acionistas e o bônus é privatizado no andar de cima. Em qualquer outro setor da economia, chamaríamos isso pelo nome correto; em finanças, chamamos de "pacote competitivo alinhado com pares".
E tem o que não se vê, que é sempre a parte mais cara da conta. Cada dólar injetado no contracheque do interino é um dólar que não volta para o capital regulatório, que não reforça provisão para crédito duvidoso, que não abate dívida, que não melhora a qualidade do ativo. O depositante do interior da Virgínia, o aposentado que deixou as economias num CD, o pequeno acionista que comprou no topo acreditando na tese de turnaround, todos eles financiam silenciosamente o bônus. A diferença entre esse arranjo e o velho esquema de senhoriagem estatal, onde o soberano imprime moeda para pagar a corte, é apenas cosmética. O mecanismo é idêntico: extrair de muitos, distribuir a poucos, chamar de necessidade técnica.
O final dessa história já está escrito em dezenas de bancos regionais americanos nas últimas quatro décadas. Ou aparece um comprador estratégico que absorve a bagunça com deságio e demite metade do andar executivo na semana seguinte, ou o regulador entra pela porta da frente com a chave do cofre. Em nenhum dos dois desfechos o pacote turbinado do interino faz sentido econômico. Faz sentido político, faz sentido de compadrio, faz sentido de ritual corporativo. Sentido econômico, zero. Mas essa, convenhamos, nunca foi a métrica que importou para quem está do lado certo da mesa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.