A BlueNord, operadora norueguesa do campo Tyra no Mar do Norte, fechou o primeiro trimestre de 2025 com um salto vigoroso no fluxo de caixa operacional, sustentado por produção elevada de gás e líquidos num campo que foi redesenhado, religado e devolvido à ativa depois de anos de obra. Quer dizer, enquanto os ministros do clima europeus dão entrevistas chorosas sobre a transição energética e o fim iminente dos combustíveis fósseis, a empresa que tira hidrocarboneto do fundo do mar imprime caixa como se 2050 nunca fosse chegar. E não vai chegar, pelo menos não no roteiro que escreveram em Bruxelas.

Aqui está o detalhe que ninguém da grande imprensa econômica quer encarar de frente. O gás que a BlueNord bombeia do Mar do Norte é exatamente o mesmo gás que aquece os apartamentos alemães depois que Berlim fechou suas usinas nucleares, sabotou o Nord Stream e descobriu, num lampejo tardio de matemática básica, que vento e sol não esquentam radiador em janeiro. O preço do gás europeu segue alto não porque a demanda subiu, mas porque a oferta foi politicamente estrangulada. E quem montou o cerco regulatório agora paga pedágio para quem teimou em continuar produzindo. É a tragédia em três atos: primeiro se proíbe, depois se importa, por fim se paga caro.

Siga o caminho do dinheiro e a história fica ainda mais saborosa. A Noruega, que não é membro da União Europeia e portanto não precisa engolir os decretos verdes vindos de Bruxelas, virou o maior fornecedor de gás do continente depois que cortaram a Rússia. O fundo soberano norueguês, recheado com royalties de petróleo, já passa de 1,7 trilhão de dólares e financia generosamente o welfare state que os progressistas adoram exibir como modelo. Quer dizer, o paraíso socialdemocrata escandinavo é bancado pelo combustível fóssil que os mesmos socialdemocratas dizem querer abolir. Hipocrisia? Não, é divisão internacional do trabalho na sua forma mais cínica: um vende petróleo, outro compra; um lucra, o outro discursa.

O caso BlueNord também desmonta a fábula de que o mercado de capitais já abandonou a indústria fóssil por pressão ESG. Abandonou nada. O capital fugiu dos relatórios de marketing verde, mas continua firme onde gera retorno real, com fluxo de caixa palpável, dividendos pagos em coroa norueguesa convertível, não em crédito de carbono fictício negociado entre consultorias. Quando o investidor escolhe entre uma planilha de ESG e um cheque trimestral, a planilha vai para a gaveta. O preço, esse organismo vivo que humilha planejadores há séculos, continua sinalizando o que é escasso e o que é abundante, e nenhum decreto de Estrasburgo conseguiu reescrever a tabela periódica.

Há ainda a lição geopolítica que o resultado da BlueNord oferece de graça para quem quiser ler. A Europa decidiu se tornar dependente energética da boa vontade norueguesa, da meteorologia e de gasodutos cada vez mais expostos a sabotagens cuja autoria ninguém investiga com afinco. Trocou um fornecedor previsível e barato por um mosaico de fragilidades, e ainda chama isso de soberania energética. O resultado é tarifa industrial alemã três vezes maior que a americana, indústria química debandando para o Texas e cidadão comum pagando a conta no boleto da luz. Enquanto isso, a operadora do Tyra ri por último, com a planilha aberta e o reservatório cheio.

O primeiro trimestre da BlueNord não é apenas um número contábil bonito, é um sintoma. Sempre que o Estado decreta a morte de um setor, surge alguém disposto a recolher os despojos com lucro. Sempre que o burocrata fecha uma porta, o mercado abre uma janela e cobra ingresso. A transição energética virou um teatro caro em que os atores fingem desligar a tomada enquanto o gerador funciona nos bastidores movido a gás norueguês. E o público, que paga o ingresso, ainda aplaude achando que está salvando o planeta. A próxima fatura virá no inverno, como sempre vem.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.