A notícia chegou seca, dessas que o investidor de varejo lê em três segundos e segue rolando o feed: a BMO Capital elevou o preço-alvo das ações da Legence, empresa de soluções de engenharia para edifícios e infraestrutura, com o argumento de que a demanda por data centers movida pela explosão da inteligência artificial vai sustentar crescimento robusto nos próximos anos. Olha, parece detalhe técnico de relatório, mas é uma das declarações mais reveladoras do ciclo econômico atual. O analista que assina o upgrade está dizendo, sem dizer, que a economia da IA é, em última instância, uma economia de cobre, alumínio, concreto e quilowatts. O resto é marketing.

Quer dizer, vendem para o público a imagem de uma revolução etérea, algoritmos flutuando numa nuvem mística, modelos de linguagem que parecem nascer do espírito puro. A realidade é prosaica e gloriosa ao mesmo tempo: cada token gerado por um chatbot exige um galpão refrigerado em algum lugar do interior do Texas ou da Virgínia, com transformadores zumbindo, dutos de ar gelado correndo no teto e um exército de eletricistas, encanadores e engenheiros mecânicos garantindo que o servidor não derreta. A Legence ganhou destaque porque faz exatamente isso, projeta e mantém os sistemas que permitem que o edifício não vire forno. Não há nada de glamouroso, e é justamente por isso que dá dinheiro.

Me diz uma coisa, quantas vezes você ouviu nos últimos dois anos algum guru de tecnologia explicar que vivemos uma era pós-material, em que o valor migrou do físico para o digital, em que a economia agora é de bits e não mais de átomos? Pois é, e enquanto esse discurso era repetido em painel de Davos, o preço do cobre subia, o backlog de transformadores elétricos atingia dois anos de espera, e empresas de HVAC industrial passaram a ser disputadas a tapa por fundos. O mundo real teima em existir, mesmo quando a moda intelectual decreta que ele acabou. E o investidor que entendeu isso primeiro está rindo, baixinho, no fundo da sala.

Há aqui também uma lição sobre o que se vê e o que não se vê. O que se vê é a ação da fabricante de chips disparando, a manchete sobre o último modelo lançado pelo laboratório da moda, o CEO carismático prometendo inteligência artificial geral até a próxima sexta-feira. O que não se vê é a fila silenciosa de subcontratados, fornecedores de equipamento elétrico, empresas de engenharia predial e operadores de canteiro que constroem a base física sobre a qual todo o espetáculo acontece. O capital, quando é deixado em paz para circular, sempre encontra esses elos esquecidos. Não precisa de ministro do planejamento, não precisa de plano quinquenal, não precisa de comitê interministerial de transição digital. Precisa só de preço livre, propriedade respeitada e contrato cumprido. O resto é consequência.

E aqui mora a parte deliciosamente irônica. Os mesmos governos que passam o dia inteiro falando em transição energética, em descarbonização, em sustentabilidade, são os que travam licenciamento de linhas de transmissão, atrasam autorização de novas usinas, criam barreiras regulatórias para expansão de capacidade elétrica e depois se perguntam por que a inteligência artificial está sendo construída onde a burocracia é menor. A demanda elétrica dos data centers vai dobrar, talvez triplicar, na próxima década. Quem entendeu o jogo está comprando empresa de engenharia, equipamento pesado e infraestrutura crítica. Quem não entendeu está esperando o ETF temático da moda subir mais dez por cento e acreditando que isso é investir em tecnologia.

No fim, a tese da BMO é quase um aforismo disfarçado de relatório financeiro: toda revolução tecnológica precisa de chão de fábrica, de oficina, de gente que suja a mão. A próxima fortuna não será feita por quem programa o modelo, mas por quem mantém a temperatura da sala onde o modelo roda. A economia real nunca foi embora, ela só ficou esperando que os profetas do imaterial se cansassem de falar. E quando o ar-condicionado do data center falha às três da manhã, ninguém liga para o filósofo da disrupção. Liga para o engenheiro mecânico. Sempre foi assim, sempre será.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.