O BMO subiu o preço-alvo da Fiserv para sessenta dólares e a manada financeira reagiu como se tivesse recebido revelação divina. Quer dizer, uma empresa de processamento de pagamentos vale mais porque um analista de terno bem cortado, sentado em uma sala climatizada de Toronto, mexeu uma planilha. O fato concreto é singelo e ninguém comenta: o setor de meios de pagamento não cresce porque produz mais riqueza, cresce porque o volume nominal de transações infla junto com a base monetária que os bancos centrais despejam no mundo desde 2020. Toda vez que a impressora de dinheiro acelera, as processadoras de cartão lucram na passagem. É pedágio. E pedágio em rodovia que ninguém escolheu construir.

Olha, a Fiserv é um caso interessante de capitalismo de compadrio sofisticado. Ela não compete em mercado aberto contra mil concorrentes ágeis. Ela opera dentro de um arranjo onde os trilhos de pagamento foram historicamente protegidos por regulação bancária, barreiras de entrada estatais e acordos exclusivos com instituições financeiras que, elas próprias, vivem do oxigênio do banco central. Você acha que o crescimento dessa empresa vem da genialidade empreendedora? Vem do fato de que processar dinheiro alheio virou monopólio quase-natural sancionado por décadas de regulação que afastou os pequenos e consolidou os grandes. O que se vê é a margem operacional reluzente. O que não se vê é o pequeno comerciante que paga taxa de três por cento toda vez que vende um pão de queijo.

Me diz uma coisa, se o setor fosse genuinamente livre, com concorrência irrestrita e moeda sã, alguém pagaria essas tarifas absurdas para que um intermediário tecnológico mova bits de uma conta para outra? Em qualquer mercado decente, a margem dessas empresas teria sido corroída por concorrência há uma década. Mas o sistema bancário moderno é uma catedral barroca de licenças, exigências de capital, compliance regulatório e acordos com bandeiras que tornam praticamente impossível para qualquer startup honesta desafiar a posição estabelecida. As criptomoedas tentaram romper esse muro e foram recebidas com a fúria regulatória que se esperaria de um monopolista ferido. Não foi acaso. Foi defesa de feudo.

O analista do BMO fala em crescimento orgânico, expansão de margem, novas verticais. Tudo bonito no relatório. Mas siga o dinheiro até a última gaveta e você vai encontrar a mesma história de sempre: empresa beneficiária de arranjo regulatório recebe avaliação otimista de banco beneficiário do mesmo arranjo regulatório, ambos vivendo do diferencial entre o dinheiro que o cidadão produz com suor e o dinheiro que o Federal Reserve fabrica com decreto. O preço-alvo de sessenta dólares pressupõe que essa engrenagem continuará girando indefinidamente. Pressupõe também que ninguém vai notar.

O escândalo silencioso é este: a chamada inovação financeira das últimas duas décadas, na imensa maioria dos casos, não criou nada que não pudesse ser feito por uma cooperativa bem administrada com tecnologia de mil novecentos e noventa e cinco. O que ela fez foi capturar fatias cada vez maiores de cada transação produtiva da economia real, transformando empresários de verdade, padeiros, mecânicos, lojistas, em fornecedores involuntários de receita para um setor que vive de cobrar travessia. E o mercado de ações, drogado em dinheiro barato, valida o esquema com preços-alvo cada vez mais generosos. Até o dia em que a liquidez secar e a conta aparecer.

A elevação do preço-alvo da Fiserv não é notícia sobre uma boa empresa. É sintoma de um sistema que confunde inflação monetária com crescimento, captura regulatória com vantagem competitiva e pedágio sancionado pelo Estado com inovação. Enquanto a base monetária global continuar inchando e os trilhos de pagamento continuarem fechados a competidores reais, a Fiserv vai bater meta. E o trabalhador que recebe salário em moeda diluída vai continuar pagando, em cada compra, a parcela invisível que financia o brinde do analista canadense. O capitalismo de verdade morreu há tempos. O que sobrou é um cassino regulado onde a casa sempre ganha, e o crupiê manda flores para o gerente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.