O banco canadense subiu o preço-alvo das ações da American Airlines embalado na tese do rendimento crescente por assento-milha, esse jargão elegante que traduzido para o português significa o seguinte, a companhia está conseguindo cobrar mais caro por cada bunda sentada na poltrona. Os analistas festejam, o investidor institucional compra, o release vai para a Bloomberg, e ninguém pergunta a coisa mais óbvia, por que raios uma empresa que quebrou tecnicamente em 2011, que recebeu 5,8 bilhões de dólares em auxílio direto durante a pandemia e outros 5,5 bilhões em empréstimos garantidos pelo Tesouro americano, está sendo precificada como se operasse num mercado livre.

Aviação comercial americana é o retrato pintado a óleo do capitalismo de compadrio. Você tem quatro companhias controlando praticamente toda a malha doméstica depois de uma sequência de fusões que qualquer antitruste sério teria barrado, tem slots em aeroportos distribuídos como favor político, tem controladores de tráfego aéreo estatais, tem subsídio cruzado via Essential Air Service, tem resgate na crise, tem isenção fiscal no combustível em certas rotas, e no fim da linha tem o BMO escrevendo relatório sobre rendimento como se aquilo fosse resultado de gestão brilhante e não de barreira de entrada blindada pelo governo federal.

O rendimento por assento sobe não porque a American descobriu como servir café melhor ou porque seus pilotos viraram semideuses da eficiência. Sobe porque a oferta foi artificialmente restringida, porque os concorrentes menores morreram ou foram engolidos, porque a capacidade instalada nunca voltou ao nível pré-pandemia apesar de o tráfego ter voltado, e porque o passageiro americano médio não tem alternativa. Isso não é mercado funcionando, isso é oligopólio maduro extraindo renda de uma demanda cativa. E o analista chama de perspectiva positiva. Quer dizer, positiva para quem detém a ação, porque para quem compra passagem é outra história inteiramente.

Siga o dinheiro e a coisa fica mais divertida. Quem detém grandes posições nas aéreas americanas são os mesmos fundos que detêm posições nas concorrentes, BlackRock, Vanguard, State Street, os suspeitos de sempre. Quando o mesmo dono está dos dois lados do balcão, concorrência agressiva vira má educação corporativa. É mais lucrativo para o acionista comum que todas as aéreas cobrem caro do que uma brigue pelo passageiro e destrua margem das outras. O resultado é previsível, preços sobem, bagagem vira item pago, poltrona com um dedo a mais de espaço vira produto premium, e o relatório do BMO chama isso de disciplina de capacidade.

Há ainda o detalhe que ninguém publica em letras grandes, a American carrega uma montanha de dívida que só é administrável enquanto o juro não morde de verdade e enquanto o combustível não explode. Basta o petróleo voltar para três dígitos e o Federal Reserve segurar taxa alta por mais dois trimestres para a tese do rendimento virar piada de mau gosto. Mas isso não entra no modelo do analista porque o analista vende otimismo, não prudência. Otimismo fatura comissão, prudência não paga bônus.

No fim, a lição é velha e nunca envelhece. Quando uma indústria depende do Estado para existir, para se consolidar, para ser resgatada e para manter concorrentes fora, qualquer análise financeira que ignore esse arranjo está contando meia história. O BMO viu o preço por assento e aplaudiu. O que não viu, ou fingiu não ver, foi a estrutura de privilégio que permite esse preço existir. E o que não se vê, como sempre, é o que realmente conta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.