O BMO Capital Markets elevou o preço-alvo da Steel Dynamics para US$ 240, apostando em perspectivas robustas de lucros, e a manchete passa pelo terminal como se fosse apenas mais um ajuste técnico de analista. Não é. Quando uma siderúrgica americana vira queridinha de banco de investimento em pleno 2026, o que se está precificando não é produtividade, não é inovação, não é eficiência de forno elétrico; o que se está precificando é a probabilidade de Washington manter a mão na balança protegendo o aço doméstico contra tudo que venha de fora. O lucro projetado é real, mas a origem dele é política. E isso muda completamente a leitura.

Vale lembrar como chegamos aqui. A Seção 232, as tarifas de 25% sobre aço importado herdadas do primeiro Trump, mantidas por Biden com retoques cosméticos e agora endurecidas na segunda rodada trumpista, criaram um mercado cativo dentro dos Estados Unidos onde o produtor doméstico vende caro porque o concorrente estrangeiro foi taxado até virar inviável. Soma-se a isso o Inflation Reduction Act, que despeja subsídio verde em quem produz aço com menor intensidade de carbono, e a Steel Dynamics, com suas mini-mills a arco elétrico, virou beneficiária dupla: protegida contra o importado e premiada pelo ESG oficial. Lucro de US$ 240 por ação não é mérito isolado da gestão; é cortesia do contribuinte americano e do consumidor que paga mais caro na lata de refrigerante, no carro, na lavadora, no prédio.

Aqui mora o truque que quase ninguém conta. O que se vê é a ação subindo, o analista feliz, o CEO na CNBC falando de disciplina de capital. O que não se vê é a indústria de transformação americana pagando aço mais caro que o resto do mundo, é o pequeno fabricante de peças metálicas em Ohio fechando as portas porque não consegue repassar o preço, é o consumidor final desembolsando um prêmio invisível em cada bem durável que comprou nos últimos cinco anos. A conta fecha para a Steel Dynamics, claro que fecha. Sempre fecha quando o Estado te entrega um mercado cativo de bandeja. O problema é que a conta fecha para um e abre para milhões, e essa parte não entra no relatório do BMO.

Quem acompanha a história sabe que protecionismo siderúrgico é um dos vícios mais antigos da política americana, vem desde a tarifa McKinley no final do século XIX, passa pelo Smoot-Hawley que ajudou a aprofundar a Depressão, reaparece com Reagan contra o aço japonês, com Bush filho em 2002, e agora em regime permanente. Toda vez a promessa é a mesma: proteger o emprego doméstico, reindustrializar o país, devolver dignidade ao operário. Toda vez o resultado é o mesmo: alguns produtores ficam obscenamente ricos, alguns sindicatos ganham cadeira cativa em Washington, e o consumidor paga a diferença sem perceber. A Steel Dynamics é apenas a versão 2026 desse enredo repetido, agora com verniz de transição energética para seduzir o investidor que precisa de selo ESG no prospecto.

O investidor racional olha US$ 240 e faz a pergunta certa: esse lucro sobrevive a uma eventual liberalização? Se amanhã um acordo comercial derrubar as tarifas, se o próximo governo resolver encerrar os subsídios verdes, se a China inundar o mercado global com aço barato de novo, quanto sobra da tese? Pouco, muito pouco. O que o BMO está realmente projetando, sem dizer, é que a captura regulatória da siderurgia americana é estrutural, bipartidária, irreversível no horizonte visível. E provavelmente está certo. O sistema está montado para que Steel Dynamics e seus pares continuem lucrando à custa de todo mundo, e o eleitor médio aplaude porque acha que está defendendo o emprego americano quando na verdade está subsidiando o jato executivo do CEO.

Nenhuma empresa que depende do lobby em vez do cliente merece o status de grande negócio; merece apenas o status de grande concessão. E concessão, como toda a história econômica ensina, dura exatamente o tempo que o poder político decide que vai durar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.