O BNDES anunciou com a pompa de quem inaugura ponte que captou cerca de duzentos milhões de dólares junto a uma instituição espanhola, e a imprensa econômica do andar de cima recebeu a notícia como quem recebe boletim de bom comportamento. Olha, vamos começar pelo começo, porque a manchete esconde mais do que revela. Um banco estatal brasileiro, que existe oficialmente para "fomentar o desenvolvimento", saiu de pires na mão pelo mundo para pegar emprestado em moeda forte. Quer dizer, o mesmo banco que distribui crédito subsidiado a juros que o pequeno empresário só vê em sonho precisa, ele próprio, mendigar funding em euro convertido em dólar. Alguém aí já percebeu a piada?
O arranjo é uma daquelas obras-primas da contabilidade criativa que só sobrevivem porque ninguém olha duas vezes. O BNDES capta lá fora a um custo, repassa aqui dentro a outro, e a diferença, quando dá errado, vira fatura no Tesouro Nacional, ou seja, no seu contracheque mensalmente corroído. Quando dá certo, o lucro vira propaganda institucional sobre "parceria internacional estratégica". Privatizam-se os louros, socializam-se os prejuízos, e o cidadão comum, esse coitado que paga IPVA, IPTU, ICMS, IR, INSS e mais uma cesta de siglas, descobre depois, sempre depois, que financiou empréstimo barato para o amigo do diretor que conhece o assessor do ministro.
Me diz uma coisa, se o projeto que vai receber esse dinheiro fosse genuinamente lucrativo, por que precisaria de banco estatal? O mercado privado, com toda a sua suposta ganância, estaria fazendo fila para emprestar. Quando aparece um banco oficial captando fora para subsidiar dentro, é porque o projeto não se sustenta nas pernas próprias. É operação de salvamento disfarçada de política industrial, é favor político vestido de planejamento estratégico, é a velha história do dinheiro que sai da algibeira de quem não pode reclamar para encher a algibeira de quem pode contratar lobista.
O que se vê é o anúncio glamouroso, a foto com bandeiras, o release falando em "captação bem-sucedida a taxas competitivas". O que não se vê é o pequeno produtor rural que não consegue rolar a dívida no banco privado porque o custo do dinheiro no Brasil está nas alturas exatamente por causa desse tipo de jogada fiscal, em que o Estado canibaliza a poupança nacional para alimentar seus apadrinhados. Não se vê a inflação que esses arranjos pressionam, não se vê o juro alto que todo mundo paga para que alguns paguem juro baixo. A conta é coletivizada na surdina, enquanto o benefício é privatizado no holofote.
E tem ainda o detalhe geopolítico, que ninguém comenta porque ficou feio comentar. Captar em instituição espanhola significa dependência adicional de credor estrangeiro num momento em que o Brasil já patina sob montanha de dívida pública crescendo mais rápido que a economia que deveria sustentá-la. Cada dólar que entra hoje pela porta da frente do BNDES é compromisso cambial saindo pela porta dos fundos amanhã. E quando o câmbio virar, e ele sempre vira, o ajuste cai sobre quem nunca pegou um centavo dessas operações: o assalariado, o aposentado, o consumidor do supermercado que não entende por que o arroz subiu de novo.
O nome técnico disso é fomento. O nome honesto é confisco diferido. E enquanto chamarem de modernidade financeira o que é apenas a versão atualizada do velho capitalismo de compadrio, a festa continua, com champanhe espanhol e ressaca brasileira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.