Um executivo de banco francês senta na poltrona de um estúdio em Hong Kong, ajusta a gravata, e anuncia ao mundo que seus clientes estão "repositionando seus portfólios" para focar nos beneficiários da inteligência artificial. O mercado norte-asiático supera os pares, diz ele, como quem informa o clima. O que ninguém pergunta na entrevista é a coisa óbvia: se todo mundo já está repositionando, quem foi que comprou primeiro, no escuro, antes da entrevista virar bandeira? Porque a regra do mercado, aquela que os corretores de rua aprendem antes dos PhDs em Wharton, é que quando o gerente do banco te liga sugerindo uma tese, a tese já tem dois anos de vantagem na carteira de alguém que não atende telefone.

Olha, a coreografia é antiga e funciona porque o público é sempre novo. Primeiro vem a inovação genuína, geralmente paga com capital de risco real assumindo perdas reais. Depois vem o consenso dos analistas, que descobrem o setor com seis meses de atraso e produzem relatórios com gráficos verdes. Aí vem o cliente institucional, que precisa justificar a alocação ao comitê de investimentos. Por fim, o varejo asiático, o aposentado europeu, o fundo de pensão municipal, todos chegam juntos na festa, exatamente na hora em que o garçom começa a recolher as taças. E o banco, claro, está nas duas pontas: vendendo o produto na entrada, estruturando o derivativo no meio, e oferecendo o hedge na saída quando o cliente perceber que comprou caro.

Quer dizer, a euforia em torno da IA tem fundamento técnico, ninguém aqui está fingindo que o salto computacional não aconteceu. O problema nunca foi a tecnologia, foi o preço que o mercado decide pagar pela promessa dela. Quando bancos centrais inundam o sistema de liquidez por uma década e meia, o capital fica desesperado por uma narrativa que justifique avaliações estratosféricas, e a IA chegou em hora providencial. Não é coincidência que o "boom" começou exatamente quando as taxas estavam no chão e o dinheiro impresso precisava ir para algum lugar diferente do colchão. A onda monetária precisava de uma onda tecnológica para parecer racional. Encontraram-se.

O detalhe que o entrevistador educado não pergunta, e que o executivo educado não comenta, é a concentração obscena de risco. Cinco, talvez sete empresas carregam o índice nas costas; o resto é paisagem. Quando o "mercado" sobe, está subindo o peso desses gigantes, e quando cair, vai arrastar todo mundo que comprou ETF acreditando que estava diversificado. Diversificação virou marketing de embalagem. Por dentro, todo fundo de tecnologia, de growth, de "inovação", de "futuro", carrega o mesmo punhado de tickers, e cada um deles negocia a múltiplos que só fazem sentido se assumirmos crescimento eterno em uma economia que historicamente nunca conheceu crescimento eterno.

E tem o ângulo geopolítico que ninguém digere bem em entrevista de quinze minutos no canal de finanças. O "norte asiático" que supera os pares é em boa parte exposição a empresas que dependem de cadeias de suprimento atravessando o estreito de Taiwan, de equipamentos de litografia holandeses sujeitos a controle de exportação americano, de demanda final chinesa em desaceleração estrutural, e de uma guerra comercial que só esquenta. Cada uma dessas variáveis é capaz, sozinha, de virar a mesa. O cliente repositionando portfólio para "beneficiários da IA" está, na prática, fazendo uma aposta concentrada em paz geopolítica, fluidez de comércio internacional e continuidade regulatória americana, três coisas que estão menos garantidas hoje do que em qualquer momento dos últimos quarenta anos.

Me diz uma coisa, quando foi a última vez que um banco grande recomendou em alto e bom som comprar algo antes da história virar capa de revista? A função social do banco de investimento neste estágio do ciclo é distribuir para o varejo aquilo que o smart money quer vender, e fazem isso com o sorriso treinado de quem sabe que a comissão entra de qualquer jeito, suba ou desça. Quem está realmente ganhando dinheiro com a corrida da IA não são os clientes finais comprando ações a vinte e cinco vezes lucro futuro projetado por modelo otimista; são os intermediários cobrando taxa de gestão, taxa de performance, taxa de custódia, spread de derivativo e comissão de corretagem em cada uma das pernas da operação. A casa sempre ganha, e a casa hoje fala francês com sotaque de Hong Kong.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.