Existe um momento peculiar em qualquer debate econômico sério quando uma das partes percebe que sua teoria-chave não é uma teoria, mas uma definição. Não uma descoberta empírica sobre como o mundo funciona, não uma hipótese testável sobre comportamento humano, mas uma tautologia, o tipo de afirmação que é verdadeira por construção, da mesma forma que "todo solteiro é não-casado" é verdadeira independente do que aconteça na realidade. Esse momento chegou, sem cerimônia, para a Teoria Monetária Moderna quando um economista do Instituto Mises resolveu sentar com o cofundador do movimento e perguntar, com paciência clínica, o que exatamente os "balanços setoriais" estão provando.
A pedra angular do argumento MMT vai assim: numa economia fechada, o déficit do governo é, por definição contábil, igual ao superávit líquido do setor privado. Logo, se o governo não incorrer em déficit, o setor privado não pode poupar em termos líquidos. Parece revelador. Parece que descobriram algo. O problema é que não descobriram absolutamente nada, porque estão descrevendo uma identidade matemática que vale antes, durante e depois de qualquer política econômica, independente de qualquer decisão humana. É como provar que o comércio internacional existe porque exportações menos importações mais ou menos alguma coisa sempre somam zero. Verdadeiro. Inútil como guia de ação. E perigoso quando usado para justificar gasto infinito.
A confusão é deliberada ou não, tanto faz, entre uma identidade contábil e uma relação causal. Dizer que "A é igual a B por definição" não implica que "A causa B" nem que "B requer A". O setor privado de uma economia não precisa de déficit governamental para poupar, investir e acumular riqueza real. O que o setor privado precisa é de liberdade para produzir, trocar e contratar, coisas que acontecem na base da ação individual, do empreendedorismo e do cálculo econômico descentralizado, não da benevolência de um tesouro nacional que resolve imprimir mais. Toda a riqueza que existe no mundo foi criada por pessoas que produziram algo que outra pessoa quis comprar. Nenhum decreto, nenhum déficit e nenhuma teoria monetária com nome sofisticado mudou isso um centímetro.
Siga o dinheiro, como sempre. A Teoria Monetária Moderna não surgiu do nada, não encontrou financiamento do nada e não se tornou popular entre políticos do nada. Ela fornece exatamente o que qualquer governo expansionista precisa: uma legitimação intelectual para o que já queriam fazer de qualquer forma. Gastar sem limite, monetizar dívida, inflar a base monetária, tudo isso embrulhado numa linguagem pseudo-técnica de "soberania monetária" e "balanços setoriais" que soa científico para quem não parou para perguntar o que as equações realmente estão dizendo. O eleitor não entende de identidades contábeis. O jornalista reproduz sem questionar. O político assina o cheque. A conta chega depois, disfarçada de inflação, que é o imposto que ninguém votou e todo mundo paga.
Há uma ironia quase poética no fato de que a maior "descoberta" da MMT, aquela que supostamente justifica todo o edifício teórico, é precisamente o tipo de coisa que qualquer estudante de contabilidade aprenderia no primeiro semestre e nunca confundiria com uma teoria econômica. Uma identidade contábil diz como registrar transações. Não diz o que produz riqueza, o que provoca crescimento, o que gera poupança real ou o que destrói o poder de compra de uma moeda. Usar uma tautologia como fundamento de política macroeconômica é como usar o fato de que "toda venda tem um comprador" para concluir que o governo deveria comprar tudo. Formalmente correto. Materialmente absurdo.
O debate continuará porque há muito interesse material em manter a confusão viva. Mas o argumento central está exposto: a MMT não descobriu que déficits são bons ou necessários. Descobriu que, quando você soma as contas de uma forma específica, os números fecham. Isso sempre fechou. Fechou durante o Império Romano, fechou durante a inflação alemã de 1923, fechou durante qualquer colapso monetário que a história registrou. As contas fecham. A riqueza real, essa sim some, e some exatamente da forma que uma teoria baseada em identidades contábeis jamais conseguirá explicar. Identidade não é causalidade, e equação de contabilidade não é ciência econômica. Quando a diferença entre as duas desaparecer do debate público, prepare-se para a conta.
Com informações do Mises Institute. A análise e opinião são do O Algoz.