O Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra deve cruzar os braços nesta quinta-feira e deixar a taxa básica em 3,75%, com a imprensa especializada pintando o gesto como prudência diante do choque do petróleo provocado pela guerra com o Irã. É a velha encenação. O burocrata em Threadneedle Street observa o termômetro que ele próprio quebrou e anuncia, com a solenidade de um oráculo, que vai ficar parado. Ninguém na City pergunta a coisa óbvia: por que diabos um comitê de doze pessoas, reunido a portas fechadas, decide o preço do dinheiro de sessenta e sete milhões de britânicos? Em qualquer outro mercado, isso se chamaria fixação de preço por cartel. Em política monetária, chamam de ciência.

O argumento oficial é primoroso na sua circularidade. O choque energético vindo do Golfo, dizem, pode reacender a inflação, então não dá para cortar. Mas a economia doméstica está fraca, então não dá para subir. Logo, o melhor é ficar onde está, esperando que o vento mude. Quer dizer, depois de quinze anos imprimindo libra como se papel fosse trigo, depois de inflar imóveis até virarem ativos especulativos inacessíveis a qualquer trabalhador inglês, depois de empurrar dívida pública para níveis de pós-guerra, agora o Banco descobre a virtude da paciência. É a paciência do incendiário que, vendo a casa pegar fogo, decide não acender mais um cigarro.

Olha, a guerra do Irã é uma desculpa conveniente, mas não é a causa. O choque energético só dói tanto porque a estrutura produtiva britânica foi sendo desidratada por décadas de regulação verde, dependência importada e fé teológica em renováveis intermitentes. Quando o petróleo sobe, descobre-se que a ilha que outrora moveu o mundo a carvão hoje depende do humor dos aiatolás e do gás russo travestido de gás norueguês. Isso não é fatalidade geopolítica, é resultado direto de escolhas regulatórias que ninguém votou diretamente, mas que todos pagam toda vez que abastecem o carro ou ligam o aquecedor.

E aí entra a parte que os comunicados oficiais nunca mencionam. Quem ganha com juro a 3,75% e inflação corroendo no fundo? Os bancos comerciais que captam barato e emprestam caro, o Tesouro britânico que rola dívida monstruosa a custo subsidiado pela própria política do Banco, e os grandes detentores de ativos que viram seus imóveis e ações inflados pela liquidez artificial despejada desde 2009. Quem perde? O aposentado que vê a poupança encolher, o jovem que nunca terá uma casa, o pequeno empresário sem acesso ao guichê do crédito barato. Siga o dinheiro e descobrirá que toda decisão de manter os juros é uma decisão sobre quem subsidia quem, disfarçada de tecnicalidade.

O mais sintomático é a aura sacerdotal que envolve esses anúncios. Manchetes globais, economistas de terno escuro tentando adivinhar uma vírgula, o mercado prendendo a respiração para saber se um homem chamado Andrew Bailey vai apertar ou afrouxar o garrote. Em séculos passados, foi o ouro que governou as moedas, e governou bem; ninguém precisava esperar reunião nenhuma para saber quanto valia uma libra esterlina, porque libra esterlina era, literalmente, uma libra de prata esterlina. Hoje, a libra vale o que doze pessoas decidirem que ela vai valer, e a coisa é tratada como progresso civilizacional.

A verdade incômoda é que nenhum comitê, por mais sofisticado que seja seu modelo econométrico, possui o conhecimento disperso entre milhões de poupadores, tomadores, exportadores e importadores que o sistema de preços livre agregaria automaticamente. Toda vez que o Banco da Inglaterra decide a taxa, está chutando no escuro com o dinheiro alheio, e depois cobrando o chute como sabedoria. A decisão de quinta-feira não vai mudar nada estrutural; vai apenas confirmar, mais uma vez, que o império onde nasceu a Revolução Industrial hoje administra o próprio declínio com planilhas. Quando uma nação terceiriza o preço do seu dinheiro a um comitê, não terceiriza só uma variável econômica; terceiriza o futuro.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.