O Bank of America elevou o preço-alvo da American States Water projetando crescimento sustentável, e a notícia passou pelos terminais como mais uma recomendação técnica, desses bilhetes que analistas emitem aos borbotões. Só que aqui mora uma pequena confissão involuntária sobre como o capitalismo de verdade funciona nos Estados Unidos do século XXI. A empresa não é uma startup disruptiva, não tem algoritmo proprietário, não vende inteligência artificial. Ela distribui água. Literalmente o produto mais antigo e commoditizado que a humanidade conhece. E mesmo assim, Wall Street enxerga crescimento estruturalmente garantido. Por quê?

Porque não existe concorrência. Porque a regulação californiana, sob o manto bondoso de proteger o consumidor, construiu ao longo de décadas um arranjo onde a empresa tem território cativo, tarifa aprovada por comissão regulatória, retorno garantido sobre capital investido e custo de capital subsidiado implicitamente pela previsibilidade que só o monopólio legal oferece. O investidor institucional não é burro. Ele sabe que ação de utility protegida por regulador é quase renda fixa com upside. Por isso o preço-alvo sobe quando a inflação ameaça, quando os juros caem, quando o ciclo vira, quando chove e quando seca. Sempre sobe. Sempre tem tese.

Chamam isso de mercado, mas é o oposto do mercado. Mercado é aquela coisa feia onde alguém abre uma empresa ao lado, cobra mais barato, e o consumidor escolhe. Aqui ninguém abre nada ao lado, porque a comissão de serviços públicos não autoriza, porque a infraestrutura foi consolidada por sucessivas rodadas de fusão e aquisição abençoadas pelos mesmos reguladores, e porque a barreira de entrada foi erguida tijolo por tijolo em nome da segurança hídrica, da modicidade tarifária e de todas as palavras bonitas que o burocrata usa quando está, na prática, escolhendo quem ganha dinheiro na cidade.

Observe o truque: o consumidor californiano paga uma das tarifas de água mais caras dos Estados Unidos, reclama quando a conta chega, vota em políticos que prometem fiscalizar a empresa, e esses políticos nomeiam os reguladores que, por sua vez, aprovam os reajustes que fazem o papel subir em Nova York. A plateia acha que está vendo uma peça sobre proteção ao consumidor. Está vendo uma peça sobre captura regulatória, só que com figurino melhor. E o banco, que não é bobo, lê o balanço, vê o fluxo de caixa previsível como relógio suíço, e recomenda comprar. O banco está certo dentro da lógica do jogo. O problema é a lógica do jogo.

Há uma lição aqui que a imprensa econômica brasileira devia prestar atenção, já que estamos vivendo um debate crescente sobre privatização de saneamento e concessões de água. Privatizar sem abrir mercado não é liberalismo, é troca de gerência do monopólio. O ativo continua blindado, a tarifa continua política, o retorno continua garantido, e o cidadão continua sem escolher nada. Quem defende esse modelo como se fosse livre iniciativa está, no melhor dos casos, confundindo as coisas, e no pior, fingindo confundir. O verdadeiro livre mercado seria permitir competição real, tecnologias alternativas de captação, poços particulares desregulamentados, dessalinização privada sem barreira burocrática. Mas isso ninguém propõe, porque o arranjo atual é lucrativo demais para os incumbentes e confortável demais para os políticos.

No fim das contas, a elevação do preço-alvo diz mais sobre o estado da economia americana do que qualquer relatório do Federal Reserve. Quando o crescimento garantido está nos setores regulados, quando a tese de investimento mais segura é apostar em quem tem proteção estatal, quando a água vale mais que a inovação, alguma coisa está profundamente errada com a alocação de capital do capitalismo tardio. Não é que o mercado esteja falhando. É que não é mais bem um mercado. É um condomínio fechado onde entram só os convidados, e a festa é paga por quem mora do lado de fora.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.