Reuniu-se em algum salão climatizado da Suíça um tal Grupo de Estudos Técnicos da Fifa, gente de gravata e crachá, e dali saiu o veredicto solene de que a bola parada não deve dominar a próxima Copa do Mundo. Quer dizer, um comitê de iluminados, debruçado sobre planilhas, vídeos e métricas de posse, chegou à conclusão antecipada de como onze brasileiros, onze argentinos, onze franceses e mais umas dezenas de seleções vão se comportar dentro de quatro linhas daqui a alguns meses. É a velha pretensão fatal de sempre, agora vestida de chuteira: a ideia de que um pequeno grupo de especialistas, do alto da sua sabedoria centralizada, consegue prever o resultado de milhões de decisões individuais tomadas em fração de segundo por jogadores, técnicos e torcedores espalhados pelo mundo.

Olha, futebol é o mercado mais honesto que existe. Cada lance é uma escolha feita com informação imperfeita, sob pressão e contra um adversário que está tentando exatamente o oposto. Nenhuma reunião técnica em Zurique vai descobrir antes do apito inicial o que cinquenta mil pares de pernas vão produzir em campo. O conhecimento relevante está disperso entre os treinadores que cortam jogadores hoje, entre os preparadores físicos que mudam a periodização semana que vem, entre os adolescentes que ainda vão ser convocados depois de uma temporada explosiva no clube. Pretender consolidar isso num relatório oficial é o mesmo erro de quem acha que dá para planejar a produção de pão de uma cidade inteira a partir de um gabinete.

Me diz uma coisa, por que esse tipo de prognóstico solene aparece todo ciclo, sempre na mesma época, sempre com ar de ciência? Siga o dinheiro. A Fifa precisa vender narrativa antes da Copa, e narrativa boa é a que parece análise neutra. Direitos de transmissão, patrocínio, naming rights, pacote de mídia, tudo se sustenta na ideia de que aquele organismo lá em cima sabe das coisas, estuda, planeja, controla. Se admitisse honestamente que ninguém faz a menor ideia de como será o próximo Mundial, perderia metade da aura. O relatório é menos sobre futebol e mais sobre legitimidade institucional do balcão que monetiza o futebol.

Tem ainda o velho truque retórico de transformar palpite em diagnóstico. Dizer que a bola parada não vai dominar é uma frase de efeito sem custo: se acertarem, batem no peito; se errarem, ninguém vai voltar ao parágrafo seis do estudo seis meses depois. É o que se vê e o que não se vê aplicado ao esporte. O que se vê é a manchete técnica autorizada. O que não se vê é a coleção de previsões idênticas dos ciclos anteriores que terminaram em final decidida em escanteio, em pênalti aos quarenta e cinco do segundo tempo, em falta na entrada da área que ninguém esperava. A história das Copas é um cemitério de tendências decretadas antes da bola rolar.

E há um detalhe cultural que esse tipo de relatório nunca capta. Bola parada não é apenas tática, é caráter, é tradição, é o tipo de jogo que cada seleção carrega na alma desde a base. Tem país que faz da falta lateral um patrimônio nacional, tem treinador que organiza o time inteiro em torno do escanteio porque sabe que ali se decidem mais finais do que em jogada elaborada. Querer profetizar que isso vai sumir porque a estatística da última temporada europeia mostrou queda de tantos por cento é desprezar o acumulado de décadas em nome de uma fotografia recente. Antes de derrubar a cerca, entenda por que ela está ali. A bola parada está ali há mais de cem anos por uma razão que nenhum slide em PowerPoint vai explicar melhor que um treinador raiz num vestiário apertado.

No fim, o relatório técnico da Fifa é mais um capítulo daquela mania moderna de fingir que tudo cabe em modelo, em métrica, em previsão autorizada. O futebol, felizmente, continua sendo um dos últimos territórios onde a ordem espontânea vence o comitê. Vai dominar a próxima Copa aquilo que sempre dominou: o talento individual em momento decisivo, o erro do zagueiro distraído, o lance que ninguém treinou e o gol que ninguém previu. Pode arquivar o estudo. A bola, essa, segue ignorando burocrata.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.